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Greve, eleição e PT: o que há por trás da crise dos ônibus que quase parou o DF?

Grass e Erika Kokay participaram da mobilização dos rodoviários na semana anterior às urnas; Celina apontou motivação eleitoral, enquanto sindicato alegou reivindicações trabalhistas. Justiça limitou paralisação e acordo evitou greve

Faltavam poucas horas para uma greve dos rodoviários atingir o transporte coletivo do Distrito Federal justamente na última segunda-feira antes das eleições.

Não aconteceu.

Depois de um domingo marcado por tensão, decisões judiciais, acusações políticas e negociação, empresas e trabalhadores chegaram a um acordo. Nesta segunda-feira (28), os ônibus amanheceram circulando normalmente.

Mas a greve que não aconteceu deixou uma pergunta politicamente incômoda: por que uma paralisação capaz de afetar milhares de moradores foi marcada justamente para seis dias antes das eleições?

A governadora e candidata à reeleição Celina Leão (PP) apresentou sua resposta. Afirmou enxergar motivação político-eleitoral no movimento e apontou as relações existentes entre integrantes do movimento sindical e adversários de sua candidatura.

O Sindicato dos Rodoviários apresenta outra versão. Eles sustentaram que se tratava de uma disputa trabalhista iniciada meses antes, envolvendo salários, benefícios, empregos dos cobradores e renovação do acordo coletivo.

E há fatos que ajudam o leitor a compreender por que o episódio acabou entrando de cabeça na campanha eleitoral.

GRASS ESTEVE NA ASSEMBLEIA QUE APROVOU A GREVE

Leandro Grass (PT), principal adversário de Celina nas pesquisas mais recentes, não era um espectador distante da mobilização.

No domingo, 20 de setembro, Grass participou da assembleia dos rodoviários realizada no estacionamento do Conic. Foi justamente naquela assembleia que a categoria aprovou a paralisação para o dia 28. Durante a agenda, o candidato apresentou propostas para o transporte e prometeu preservar os empregos dos cobradores e dois dias depois, Grass voltou a encontrar trabalhadores.

Em 22 de setembro, participou de caminhada com rodoviários no Terminal da Asa Sul e cobrou um acordo para atender às reivindicações da categoria. Também afirmou que as empresas teriam condições financeiras para conceder as melhorias reivindicadas declarando que “A gente tá do lado dos rodoviários.”

Portanto, o apoio político às reivindicações da categoria é documentado.

ERIKA KOKAY TAMBÉM ESTEVE NA MOBILIZAÇÃO

A participação petista não se limitou ao candidato ao GDF. A deputada federal e candidata ao Senado Erika Kokay (PT) também participou da assembleia dos rodoviários no domingo (20).

Segundo registros publicados sobre o encontro, Erika afirmou que acompanhava as negociações, defendeu as reivindicações dos trabalhadores e lembrou sua relação histórica com o movimento sindical.

Existe ainda uma ligação histórica conhecida: Erika já presidiu a CUT Brasília, entidade sindical que também manifestou apoio à mobilização dos rodoviários. A CUT-DF publicou no domingo que acompanhava a mobilização e defendia a negociação coletiva e as reivindicações dos trabalhadores.

Isso ajuda a explicar por que Celina transformou o episódio numa questão política.

O CALENDÁRIO TORNOU TUDO EXPLOSIVO

Aqui está provavelmente o ponto mais difícil de separar da política.

A greve começaria à 0h de 28 de setembro. A eleição será em 4 de outubro. Seis dias. E não estamos falando de uma paralisação qualquer.

O transporte coletivo movimenta trabalhadores, estudantes, idosos, pacientes e eleitores por todas as regiões administrativas.

Uma greve na última semana da eleição inevitavelmente produziria desgaste administrativo para quem ocupa o Palácio do Buriti, independentemente de essa ser ou não a intenção dos grevistas.

Por isso, Celina afirmou publicamente que não aceitaria aquilo que classificou como “pressão eleitoral”.

JUSTIÇA ENTROU EM CAMPO ANTES QUE OS ÔNIBUS PARASSEM

Diante da ameaça de paralisação, o GDF procurou a Justiça do Trabalho. O governo tentou impedir integralmente a greve, mas o TRT-10 não chegou a tanto.

A decisão adotou uma solução intermediária: preservou a possibilidade da greve, mas estabeleceu uma operação mínima suficientemente elevada para reduzir seu impacto sobre a população.

A determinação previa 80% da operação nos horários de pico e pelo menos 50% nos demais períodos. E havia uma sanção considerável que em caso de descumprimento poderia gerar multa de R$ 100 mil por hora, com possibilidade de elevação em caso de persistência.

A Justiça também havia determinado uma proteção específica para o domingo eleitoral: no dia 4 de outubro, a operação deveria corresponder à tabela de um dia útil, garantindo transporte aos eleitores.

Esse detalhe merece atenção.

O tribunal identificou a necessidade de proteger a mobilidade da população e o funcionamento de um serviço essencial durante a eleição.

E ENTÃO VEIO O ACORDO

No fim da noite de domingo, quando Brasília já se preparava para acordar com uma operação reduzida de ônibus, veio a solução.

A Secretaria de Transporte e Mobilidade, empresas e representantes dos trabalhadores chegaram a um entendimento, com participação também da Procuradoria-Geral do DF e atuação do TRT-10.

Os trabalhadores conseguiram 8% de reajuste salarial e 10% de aumento no tíquete-refeição e na cesta básica.

O presidente do sindicato, João Dão, comunicou o acordo e orientou os trabalhadores a comparecerem normalmente às garagens.

Resultado: a greve foi suspensa antes de começar. E os ônibus circularam normalmente nesta segunda-feira.

Celina comemorou publicamente e atribuiu o desfecho à negociação entre empresas e sindicato, com intermediação da Secretaria de Mobilidade e da Procuradoria-Geral do DF e atuação do TRT.

A COINCIDÊNCIA QUE ALIMENTOU A DESCONFIANÇA

Ainda assim, existe uma questão política legítima.

Quando candidatos participam diretamente de uma mobilização sindical que pode interromper um serviço essencial exatamente na semana anterior às eleições, é inevitável que suas ações sejam examinadas também sob a ótica eleitoral. Isso vale para qualquer partido.

Grass e Erika têm o direito de apoiar reivindicações trabalhistas, assim como o sindicato possui direito de mobilização e greve dentro dos limites legais e  que Celina possui o direito de questionar as circunstâncias e levar o assunto à Justiça.

Mas a proximidade entre greve e eleição tornou impossível separar completamente uma coisa da outra.

Principalmente porque o impacto político de uma paralisação seria evidente: passageiros sem ônibus dificilmente distinguiriam, às seis horas da manhã no ponto, quem é juridicamente responsável pela negociação coletiva. A crise inevitavelmente atingiria também a administração que governa o DF.

Isso explica a intensidade da reação do GDF.

Não prova, por si só, que produzir esse desgaste fosse o objetivo da greve.

NO FINAL, QUEM ESCAPOU DO PROBLEMA FOI O PASSAGEIRO

Talvez esse seja o único resultado sobre o qual não exista disputa partidária.

O trabalhador não ficou sem ônibus.

O estudante não precisou procurar outra maneira de chegar à escola.

O paciente não perdeu transporte por causa da greve.

E o Distrito Federal não iniciou a última semana eleitoral mergulhado numa crise de mobilidade.

A categoria obteve reajustes.

As empresas aceitaram o acordo.

O governo participou da mediação.

A Justiça havia estabelecido salvaguardas.

E a paralisação acabou antes mesmo de começar.

Politicamente, porém, a história provavelmente não termina aqui.

Celina sustenta que houve componente eleitoral.

Grass e Erika aparecem documentadamente próximos às reivindicações dos rodoviários, mas não há até agora prova pública de que tenham articulado uma paralisação para sabotar a candidatura da governadora.

Essa distinção talvez seja justamente o aspecto mais importante para o eleitor.

Porque uma coisa é fazer oposição.

Outra é apoiar uma greve.

E uma terceira — muito mais grave — seria organizar deliberadamente o caos de um serviço essencial para interferir numa eleição.

As duas primeiras estão documentadas. A terceira, até agora, permanece uma acusação política, não um fato comprovado.

Mas vá lá saber o que se passa na cabeça do eleitor! Talvez domingo saibamos!

Da redação…

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