Com Arruda fora da disputa, Datafolha coloca governadora 19 pontos à frente do petista; discurso presidencial em Ceilândia, marcado por ataques pessoais a Celina, não produziu até agora a virada esperada pelo PT
A estratégia parecia relativamente simples.
Levar o presidente Lula a Ceilândia, uma das regiões mais populosas do Distrito Federal, colocá-lo no palanque de Leandro Grass (PT) e utilizar o peso político do presidente para tentar impulsionar seu candidato ao Palácio do Buriti.
Só não contavam com uma questão: até agora, os números não acompanharam o roteiro.
Lula foi a Ceilândia, atacou a principal adversária, mas Grass permaneceu distante da liderança.
E Celina Leão (PP), justamente o principal alvo do discurso presidencial, chega à reta final da campanha com 42% das intenções de voto no cenário sem José Roberto Arruda, contra 23% de Grass, segundo o Datafolha divulgado na última quinta-feira (24). É uma diferença nominal de 19 pontos percentuais.
Para uma visita presidencial destinada a fortalecer o candidato do próprio partido, o resultado político até aqui está longe de representar a reviravolta que o PT necessita.
Lula foi ajudar Grass, mas Celina virou protagonista
O episódio aconteceu em 16 de setembro, durante ato eleitoral realizado na Praça do Trabalhador, em Ceilândia. Lula estava no palanque de Grass e das candidatas ao Senado Erika Kokay (PT) e Leila do Vôlei (PDT).
Ao tratar da crise envolvendo o BRB, entretanto, o presidente abandonou a crítica exclusivamente administrativa e partiu para uma linguagem pessoal contra a governadora.
Lula chamou Celina de “cínica e mentirosa”, acusando-a de tentar transferir para o governo federal a responsabilidade pela situação financeira do Banco de Brasília.
A Leoa reagiu. Disse que o presidente havia “errado no tom de como se fala com uma mulher” e afirmou que Lula deixou a posição de chefe de Estado para atuar como cabo eleitoral de Grass. Também classificou as declarações como ataques pessoais.
Mas existe uma diferença importante entre questionar atos administrativos e transformar o palanque presidencial numa sucessão de adjetivos contra uma adversária. Principalmente quando o próprio candidato que se pretende ajudar precisa mostrar ao eleitor quais são suas propostas para governar Brasília.
O cabo eleitoral entrou em campo. A diferença continuou enorme
E aqui aparece a ironia política do episódio.
Lula entrou diretamente na campanha do DF para tentar fortalecer Grass. Mas, olhando exclusivamente para a fotografia mais recente das pesquisas, Celina continua muito à frente e com grandes possibilidades de levar a fatura ainda em primeiro turno.
O Datafolha divulgado em 24 de setembro, depois daquele ato em Ceilândia, apresentou no cenário sem Arruda:
- Celina Leão (PP): 42%
- Leandro Grass (PT): 23%
- Paula Belmonte (PSDB): 7%
O levantamento ouviu 910 eleitores entre 22 e 24 de setembro, possui margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
E um dado fundamental para qualquer matéria eleitoral. A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral sob os números DF-01888/2026 e BR-06769/2026.
Ou seja: Lula foi a Ceilândia tentar empurrar Grass para cima, mas a fotografia posterior do Datafolha ainda mostra o candidato petista 19 pontos atrás da governadora.
Isso não prova que o discurso presidencial tenha prejudicado Grass — pesquisas de intenção de voto não permitem estabelecer essa relação causal, mas demonstra algo politicamente relevante: a entrada de Lula na campanha e os ataques feitos a Celina não produziram, até agora, uma aproximação capaz de colocar Grass perto da liderança. Pode ter sido “um grande tiro no pé”.
Arruda saiu. Começou outra eleição
Na quinta-feira (24), o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou por 5 votos a 2 o recurso de José Roberto Arruda e manteve o indeferimento de sua candidatura.
Prevaleceu o voto do relator Dias Toffoli. Acompanharam-no Ricardo Villas Bôas Cueva, Sebastião Reis Júnior, André Mendonça e Kassio Nunes Marques. Floriano de Azevedo Marques e Estela Aranha divergiram.
Arruda posteriormente anunciou que não recorreria e pediu aos seus apoiadores que não votassem mais nele.
Isso significa que milhares de eleitores que pretendiam votar no ex-governador precisam agora decidir o que fazer. E talvez esteja aí a verdadeira batalha desta última semana. Celina quer esses votos e Grass também.
Paula Belmonte, Ricardo Cappelli, Kiko Caputo e os demais candidatos igualmente têm interesse nesse eleitorado, mas as chances são relativamente muito menores de conquistarem.
Grass e o fantasma de 2022
Grass conhece bem o peso de uma eleição contra um candidato que se aproxima da maioria absoluta.
Em 2022, disputando o Governo do Distrito Federal, ele terminou em segundo lugar, enquanto Ibaneis Rocha (MDB) foi reeleito no primeiro turno.
Quatro anos depois, Grass volta a disputar o Buriti e para Grass o ideal seria que ele trocasse os adjetivos pelas propostas, coisa muito pouco provável em se tratando de PT.
O que pode ser dito é que a possibilidade de uma definição já no primeiro turno está concretamente colocada pelos números, e a redistribuição dos antigos votos de Arruda será decisiva.
O eleitor, evidentemente, possui o direito de esperar algo mais sofisticado de quem pretende governar o Distrito Federal do que simplesmente assistir a um presidente da República subir num palanque para chamar uma governadora adversária de “cínica e mentirosa”.
Celina utiliza uma estratégia perfeita de conquista. Não ousou desrespeitar o eleitor, indeciso ou não, com volumes altíssimo de ataques e tem apresentado o que ele deseja: Projetos.
Porque Lula já foi a Ceilândia, os adjetivos já foram ditos, mas pelo Datafolha, a distância entre Celina e Grass continua sendo de 19 pontos.
Da redação por Jorge Poliglota…




