Crescimento eleitoral do senador coincide com uma das maiores crises internas recentes do Supremo; possibilidade de mudança na correlação de forças no Senado coloca impeachment, limites institucionais e atuação de Alexandre de Moraes no centro do debate político
Há poucos meses, uma eventual disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro era tratada por muitos como um confronto no qual o presidente começaria em posição eleitoral mais confortável.
A fotografia atual é bastante diferente.
Na pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (21), Flávio Bolsonaro aparece com 42% das intenções de voto em uma simulação de segundo turno contra 41% de Lula. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o resultado configura empate técnico. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 17 e 20 de setembro e está registrado no TSE sob o número BR-06004/2026.
Outros institutos também vêm mostrando uma disputa apertada. Datafolha, Atlas/Bloomberg, Futura e Quaest apresentaram, em levantamentos recentes, diferenças pequenas entre os dois principais candidatos em cenários de segundo turno.
Isso não autoriza ninguém a antecipar o resultado de outubro.
Mas permite afirmar uma coisa: Flávio Bolsonaro chegou competitivo à reta final da eleição presidencial.
E isso acontece justamente quando o Supremo Tribunal Federal enfrenta uma crise interna que colocou Alexandre de Moraes e André Mendonça em lados opostos de um confronto público raramente visto dentro da Corte.
Dois movimentos que se encontraram
Existe uma coincidência politicamente poderosa acontecendo em Brasília.
Enquanto Flávio cresce nas pesquisas, Alexandre de Moraes enfrenta questionamentos relacionados ao caso Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Ao mesmo tempo, Moraes e André Mendonça passaram a trocar acusações sobre a condução das investigações.
Moraes pediu investigação contra Mendonça por supostos abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Mendonça reagiu contestando as acusações e questionando a produção de relatórios de inteligência sobre sua atuação.
O conflito chegou ao plenário do Supremo.
Em 15 de setembro, o STF iniciou a análise de uma questão de ordem envolvendo duas petições relacionadas ao caso Master. Um pedido de vista do ministro Flávio Dino suspendeu o julgamento antes que o mérito das suspeitas fosse examinado.
É importante registrar exatamente isso: o Supremo ainda não decidiu o mérito das acusações contra Moraes ou Mendonça.
Mas politicamente o estrago provocado pela exposição do conflito já existe.
Flávio percebeu a oportunidade
A campanha de Flávio Bolsonaro identificou rapidamente que a crise do STF poderia ser incorporada ao discurso eleitoral.
Reportagens sobre os bastidores da campanha mostram que seus estrategistas pretendem manter o assunto em evidência para tentar associar politicamente o desgaste do Supremo ao governo Lula.
Essa estratégia possui uma lógica evidente.
O eleitor que acompanha as notícias vê ministros do STF discutindo publicamente, questionamentos sobre relatórios policiais, mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e uma sessão do Supremo interrompida antes da análise do mérito.
A crise também ganhou enorme repercussão nas redes sociais. Levantamento da Datrix citado pela Gazeta do Povo contabilizou 1,14 milhão de publicações em quatro dias relacionadas ao embate envolvendo ministros do STF.
Flávio tenta transformar essa indignação institucional em argumento eleitoral.
Se conseguirá converter isso em votos é outra questão.
Pesquisa eleitoral mede intenção de voto, não permite estabelecer automaticamente a causa da movimentação de cada eleitor.
O problema para Moraes não está apenas no Planalto
Aqui aparece talvez o aspecto mais interessante dessa história.
Para Alexandre de Moraes, o resultado da eleição presidencial é apenas uma parte da equação institucional.
Existe também o Senado.
É o Senado Federal que possui competência constitucional para processar e julgar ministros do Supremo em crimes de responsabilidade.
Por isso, uma eventual mudança significativa na composição política da Casa a partir de 2027 teria consequências institucionais independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto.
Isso não significa que um impeachment de Moraes seja inevitável.
A tese defendida no artigo da Gazeta do Povo — de que uma vitória de Flávio acompanhada de uma maioria de direita no Senado tornaria o afastamento uma “certeza” — deve ser entendida como opinião do articulista, não como fato consumado.
Um processo dessa natureza depende de requisitos jurídicos, decisões políticas no Senado e do procedimento constitucional aplicável.
Mas também seria ingenuidade ignorar que a composição do próximo Senado interessa diretamente ao futuro das relações entre Congresso e Supremo.
O STF entrou na eleição sem ser candidato
Esse talvez seja o fenômeno mais incômodo para a própria Corte.
O Supremo não disputa eleição.
Alexandre de Moraes não está nas urnas.
André Mendonça também não.
Mesmo assim, o tribunal acabou entrando no centro da campanha presidencial.
Flávio procura explorar politicamente a crise.
Lula, por sua vez, precisa lidar com tentativas dos adversários de associá-lo ao Supremo, embora Alexandre de Moraes tenha sido indicado para a Corte por Michel Temer em 2017 — e não por Lula.
A própria crise entre Moraes e Mendonça acabou se transformando em tema eleitoral.
Isso é ruim para uma instituição cuja autoridade depende, em grande medida, da percepção pública de independência e imparcialidade.
Quanto mais o STF aparece misturado à disputa eleitoral, maior o risco de suas decisões serem interpretadas exclusivamente pela lente política.
Moraes e Mendonça: uma guerra sem precedentes recentes
As imagens da sessão do último dia 15 ajudam a dimensionar a tensão.
Moraes evitou interação direta com Mendonça durante a sessão em que se discutia justamente o destino das investigações envolvendo os dois ministros. Nos bastidores, o clima foi descrito como incomum até para os padrões de divergência interna do Supremo.
E existe uma diferença gigantesca entre divergência jurídica e desconfiança institucional.
Ministros discordarem faz parte de uma Corte constitucional.
Um votar pela constitucionalidade e outro pela inconstitucionalidade de uma lei é absolutamente normal.
O problema muda de dimensão quando um ministro pede investigação contra outro e o segundo questiona a utilização de estruturas policiais na produção de informações relacionadas à sua atividade jurisdicional.
Aí não estamos mais discutindo apenas interpretação constitucional.
Estamos discutindo confiança entre integrantes da mais alta Corte do país.
O efeito político pode ser maior que o jurídico
Talvez esse seja o ponto central.
O caso Master ainda terá muitos capítulos jurídicos.
O STF terá de decidir questões processuais e, posteriormente, analisar o mérito das controvérsias. Flávio Dino pediu vista, interrompendo a discussão sobre o julgamento conjunto das Petições 16.662 e 16.704.
Mas eleições obedecem a outro relógio.
O primeiro turno será realizado em 4 de outubro.
A Justiça pode levar meses para esclarecer completamente um episódio.
Uma campanha eleitoral trabalha em dias.
É nesse intervalo que Flávio tenta transformar a crise institucional em discurso político.
A eleição ficou apertada
O aspecto que torna tudo ainda mais relevante são os números.
Em 3 de setembro, o Datafolha mostrava Lula com 38% e Flávio com 32% no primeiro turno. Em eventual segundo turno, eram 46% contra 44%, respectivamente, já configurando empate técnico.
Levantamentos posteriores mantiveram a disputa apertada.
Na Quaest mais recente, divulgada em 21 de setembro, Flávio registra 42% contra 41% de Lula em um eventual segundo turno. Novamente, empate técnico.
Isso significa que nenhum dos dois pode ser tratado seriamente como vencedor antecipado.
Mas significa também que o cenário mudou o suficiente para que qualquer grande crise institucional adquira relevância eleitoral.
Não é preciso falar em “desespero” para enxergar o problema
É justamente aqui que uma análise crítica pode ir além da retórica.
Não sabemos o que Alexandre de Moraes pensa intimamente sobre as pesquisas.
Não sabemos se está preocupado, indiferente ou confiante.
Também não existe evidência pública suficiente para afirmar que decisões de ministros estejam sendo tomadas porque Flávio Bolsonaro subiu nas pesquisas.
Transformar essa hipótese em certeza enfraqueceria a crítica.
Os fatos, por si próprios, já são fortes.
Flávio Bolsonaro está eleitoralmente competitivo.
O STF enfrenta uma crise interna envolvendo dois de seus ministros.
Alexandre de Moraes está no centro dessa controvérsia.
O Senado que tomará posse em 2027 terá competência constitucional para analisar eventuais processos de impeachment contra ministros do Supremo.
E a campanha de Flávio decidiu explorar politicamente a crise da Corte.
Não é necessário conhecer o estado de espírito de Moraes para perceber que a combinação desses fatores mudou completamente o ambiente político de Brasília.
O Supremo também precisa olhar para dentro
A questão mais profunda talvez nem seja Flávio Bolsonaro.
Nem Lula.
Nem mesmo a eleição.
A pergunta que permanecerá depois de outubro é outra: como o Supremo chegou a uma situação em que ministros trocam acusações dessa gravidade diante do país?
Instituições fortes não demonstram força impedindo questionamentos. Demonstram força respondendo a eles. Se existem suspeitas sobre Moraes, elas precisam ser examinadas com devido processo, direito de defesa e transparência.
Se as acusações forem infundadas, isso precisa ficar igualmente claro.
O mesmo vale para André Mendonça.
Porque o problema institucional não será resolvido pela vitória eleitoral de Lula, Flávio ou qualquer outro candidato.
Será resolvido quando as instituições demonstrarem que as mesmas regras, garantias e limites são aplicados independentemente de quem esteja sendo investigado.
A eleição de 2026 apenas tornou essa cobrança impossível de ignorar.
Da redação




