Campanha avalia ausência do presidente no último confronto antes das urnas; estratégia evitaria exposição justamente quando adversários prometem cobrar explicações sobre temas incômodos. Lula quer esperar o segundo turno e de acordo com a coordenação de campanha da Globo parece ter ficado perigoso demais
O presidente Lula parece ter descoberto uma modalidade bastante conveniente de debate eleitoral: o debate em que o adversário está no palco e ele, não.
A três dias da eleição, a tendência discutida dentro da campanha petista é que o candidato à reeleição não compareça ao debate da TV Globo marcado para quinta-feira (1º). Segundo relatos de bastidores, aliados consideram que Lula se tornaria o principal alvo dos demais candidatos e teria pouco a ganhar expondo-se a um confronto na reta final.
É uma decisão estrategicamente compreensível. Democraticamente, entretanto, merece questionamento, afinal, debates existem justamente para colocar candidatos diante das perguntas que talvez preferissem não responder.
A cadeira vazia também fala
Segundo a Folha, a Globo pretende manter no estúdio uma cadeira vazia caso Lula ou outro convidado não compareça.
A campanha presidencial faz outra conta: ouvir críticas presencialmente poderia produzir desgaste maior do que suportar a repercussão da ausência. Aliados também avaliam que, sem Lula, os adversários tenderiam a concentrar ataques em Flávio Bolsonaro.
Em português eleitoral bastante simples, a turma de Lula acha que deixar o adversário levar as perguntas enquanto se assiste de longe pode parecer mais seguro. Mas aí entra outra questão, pois o eleitor talvez queira ouvir justamente quem pretende continuar governando o país.
A eleição não está exatamente resolvida
A cautela petista acontece num cenário em que não existe motivo estatístico para tratar a eleição como encerrada.
A Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) registrou Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 34% no primeiro turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Numa simulação de segundo turno, ambos aparecem com 42%.
A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 24 e 28 de setembro e está registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-06520/2026.
Portanto, a interpretação de que Lula poderia simplesmente administrar uma vitória garantida não encontra respaldo nesses números. Pesquisa não determina resultado, mas a fotografia atual mostra uma disputa competitiva.
E há assuntos desconfortáveis esperando no palco
Outro problema para Lula é que existe uma coleção considerável de assuntos que seus adversários provavelmente gostariam de colocar diante dele.
Um deles ganhou enorme repercussão nos últimos dias: Nossa Senhora Aparecida.
Circulou nas redes a alegação de que Flávio Bolsonaro ou seus aliados pretendiam retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O próprio Lula repercutiu o assunto numa entrevista à Band e, quando a jornalista Adriana Araújo observou que se tratava de fake news, respondeu que não sabia se era.
O episódio tornou-se um dos maiores assuntos políticos das redes nesta campanha, acumulando cerca de 124 milhões de interações entre 23 e 27 de setembro, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque citado pelo UOL.
É difícil imaginar que Flávio deixasse esse assunto fora de um confronto direto.
Mas também seria incorreto afirmar que essa controvérsia explica a possível ausência de Lula. Não há evidência pública disso. O que podemos dizer é que ela certamente estaria disponível para exploração política pelos adversários.
Flávio decidiu aparecer
Enquanto Lula avalia ficar fora, Flávio Bolsonaro mudou sua própria estratégia.
O candidato do PL confirmou que participará do debate mesmo que Lula não apareça. Antes, sua campanha também condicionava a participação à presença do presidente.
Isso cria uma situação politicamente curiosa.
Flávio também faltou a debates anteriores e, portanto, dificilmente pode reivindicar para si um histórico impecável de comparecimento. Mas, desta vez, estará no palco. Lula, possivelmente, não. E a ausência do presidente inevitavelmente produzirá uma imagem que nenhum marqueteiro consegue controlar completamente: uma cadeira vazia.
A justificativa petista
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, apresentou outra explicação.
Segundo ele, Lula prefere um confronto direto com Flávio e considera pouco produtivo o formato do primeiro turno, no qual precisa esperar longos períodos para voltar a fazer perguntas. Edinho indicou que o presidente estaria disposto a esperar um eventual segundo turno, quando o debate seria exclusivamente entre os dois candidatos. É uma estratégia.
Mas existe um pequeno detalhe chamado eleitor. O debate não existe apenas para atender ao formato preferido pelos candidatos. Existe para permitir que milhões de brasileiros comparem propostas, comportamento, capacidade de argumentação e respostas a questionamentos difíceis antes de votar.
Quem está confortável com suas respostas não deveria temer perguntas
É justamente aí que a possível ausência ganha dimensão política. Lula tem todo o direito de calcular riscos eleitorais. Flávio também. Caiado, Cury e qualquer outro candidato igualmente fazem suas contas.
Mas quando uma campanha conclui que comparecer a um debate representa risco maior do que faltar, o eleitor possui igualmente o direito de perguntar: risco de quê? De ser criticado? De cometer uma frase infeliz? De precisar responder sobre temas incômodos? De enfrentar adversários simultaneamente?
Tudo isso faz parte de uma eleição presidencial.
O debate existe precisamente porque campanha eleitoral não deveria ser composta apenas de discursos diante de apoiadores, entrevistas escolhidas e peças cuidadosamente produzidas por marqueteiros. No palco, existe contraditório.
Talvez o silêncio seja mesmo mais seguro
Para a campanha, faltar pode ser racional. Uma frase equivocada três dias antes da votação pode custar caro. Um candidato experiente sabe disso melhor do que ninguém.
Mas a ironia permanece.
Depois de meses pedindo ao brasileiro mais quatro anos para governar o país, Lula pode decidir que duas ou três horas respondendo diretamente aos adversários representam exposição demais.
Pode ser uma excelente estratégia eleitoral. Se será bem recebida pelo eleitor, é outra história.
Porque numa democracia existe uma diferença importante entre evitar uma armadilha eleitoral e evitar o confronto público de ideias.
E quinta-feira poderá produzir uma imagem bastante simples para que cada brasileiro tire sua própria conclusão:
de um lado, candidatos dispostos a responder.
Do outro, talvez, uma cadeira vazia em horário nobre.
Da redação por Jorge Poliglota…




