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Celina reage à ameaça de greve dos rodoviários: “Pressão eleitoral comigo não vai funcionar”

Governadora afirma estar aberta ao diálogo, mas questiona paralisação marcada para apenas seis dias antes das eleições; categoria reivindica reajuste salarial, renovação do acordo coletivo e garantia de emprego aos cobradores

A governadora do Distrito Federal e candidata à reeleição, Celina Leão (PP), reagiu com firmeza nesta segunda-feira (21) à ameaça de paralisação dos rodoviários justamente na reta final da campanha eleitoral.

A categoria decidiu, em assembleia realizada no domingo (20), aprovar uma greve geral a partir da próxima segunda-feira, 28 de setembro. A data chama atenção.

Se confirmada, a paralisação começará apenas seis dias antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

Celina deixou claro que reconhece o direito dos trabalhadores de reivindicar melhorias e afirmou estar disposta a negociar. Mas traçou uma linha que, segundo ela, não pretende ultrapassar. Deixou claro que não aceitará que a proximidade das eleições seja utilizada como instrumento de pressão sobre o governo.

“Não é o momento de se falar em reajuste tarifário. Não é este momento. É um momento eleitoral”, afirmou a governadora durante agenda do programa GDF na Sua Porta, no Gama.

“Não vou admitir”

Celina também lembrou que o governo determinou auditorias nos contratos do sistema de transporte público.

Na avaliação da governadora, discutir uma eventual alteração tarifária enquanto essa análise está em andamento e às vésperas das eleições seria inadequado.

Ao comentar a decisão tomada pelos rodoviários, Celina afirmou que não pretende governar sob ameaça de paralisação. “Estou pronta para dialogar”, declarou.

Em seguida, deixou explícito o limite de sua disposição para negociar:

“Não vou admitir sofrer esse tipo de pressão no meio de um processo eleitoral.”

A declaração coloca o GDF e o Sindicato dos Rodoviários diante de uma semana decisiva.

De um lado, trabalhadores alegam que reivindicações vêm sendo discutidas há meses sem uma proposta considerada satisfatória.

Do outro, o governo sustenta que uma ameaça de greve em plena reta final eleitoral não deve ser utilizada para forçar decisões que podem produzir consequências financeiras para todo o sistema de transporte.

Sindicato fala abertamente em “pressionar”

A reação de Celina não surgiu no vazio.

O próprio diretor financeiro do Sindicato dos Rodoviários, João Osório, afirmou que, sem mudança na postura das empresas, a categoria poderá recorrer a formas de pressão sobre empresários e governo.

Segundo ele, essas medidas ainda serão discutidas pela direção sindical.

A categoria reivindica reajuste salarial para recompor a inflação e obter ganho real, além da renovação do acordo coletivo, vencido em 30 de julho.

Entre as demandas estão a manutenção da jornada de seis horas corridas, tíquete e cesta-alimentação, planos de saúde e odontológico, adicional por tempo de serviço e garantia dos postos de trabalho dos cobradores diante das mudanças na forma de pagamento das passagens.

São reivindicações que fazem parte de uma negociação trabalhista legítima.

A controvérsia está principalmente no calendário escolhido para levar o conflito ao limite.

Uma greve a seis dias das urnas

Esse é o ponto politicamente mais sensível de toda a discussão.

Brasília possui milhões de deslocamentos realizados diariamente pelo transporte coletivo. Trabalhadores dependem dos ônibus para chegar ao emprego. Estudantes precisam do sistema para chegar às escolas e universidades. Pacientes utilizam o transporte para consultas e tratamentos.

Uma greve geral, portanto, não atinge apenas o governo.

Atinge diretamente a população.

E, neste caso, ocorreria em uma das semanas politicamente mais delicadas do ano.

A paralisação está marcada para 28 de setembro.

O primeiro turno será realizado em 4 de outubro.

São apenas seis dias de diferença.

Isso não demonstra, por si só, que o sindicato tenha finalidade eleitoral. A entidade afirma que as negociações vêm ocorrendo há meses e atribui a decisão à falta de avanço nas conversas com empresas e governo.

Mas é justamente essa coincidência temporal que levou Celina a reagir publicamente.

Celina separa diálogo de pressão

A postura apresentada pela governadora procura estabelecer uma diferença entre duas coisas. Negociar, sim. Decidir sob pressão eleitoral, não.

Celina afirmou que continuará aberta às conversas com trabalhadores e empresários, mas ao mesmo tempo, sinalizou que não pretende assumir compromissos simplesmente porque existe uma greve marcada durante a campanha.

Esse posicionamento ganha importância porque qualquer decisão relacionada ao transporte público precisa considerar não apenas salários, mas também contratos das empresas, subsídios, custos operacionais e eventual impacto sobre as tarifas pagas pelos passageiros.

Celina afirmou que o governo já solicitou auditoria desses contratos justamente para conhecer detalhadamente essa estrutura.

Trabalhadores também apresentam seus argumentos

Para compreender o impasse, porém, é necessário ouvir o outro lado.

O Sindicato dos Rodoviários afirma que as negociações não começaram agora.

Segundo a categoria, as discussões sobre o reajuste vêm ocorrendo desde junho ou julho, e o acordo coletivo anterior expirou em 30 de julho. O sindicato afirma ainda que continua esperando uma proposta capaz de evitar a paralisação.

Portanto, apesar da aprovação da greve, ainda existe espaço para negociação.

A paralisação não é inevitável. Os próximos dias serão justamente a janela para que empresas, trabalhadores e governo tentem encontrar uma solução.

Transporte coletivo é serviço essencial

Existe ainda um aspecto jurídico importante.

O transporte coletivo é classificado pela Lei nº 7.783/1989 como serviço essencial. Isso significa que uma greve não pode simplesmente deixar toda a população sem atendimento.

A legislação estabelece que trabalhadores, sindicato e empregadores devem garantir a prestação dos serviços indispensáveis às necessidades inadiáveis da comunidade. Também exige que, em atividades essenciais, a população seja comunicada previamente sobre a paralisação.

Caso a greve realmente aconteça, portanto, a discussão também poderá chegar à Justiça do Trabalho, inclusive para definição das condições mínimas de funcionamento do sistema.

O passageiro não pode virar instrumento de disputa

Independentemente das posições de governo, empresas e sindicato, existe um personagem que não pode desaparecer dessa discussão: o usuário do transporte público.

É ele quem ficará no ponto de ônibus. É ele quem precisará chegar ao trabalho. É ele quem poderá perder uma consulta médica, uma aula ou um compromisso caso o sistema seja paralisado.

Os rodoviários possuem direito de reivindicar salários e condições de trabalho.

O governo possui obrigação de administrar contratos e recursos públicos com responsabilidade.

E as empresas possuem responsabilidades trabalhistas e contratuais.

O que não deveria acontecer é o passageiro acabar transformado na principal vítima de um conflito que precisa ser resolvido em uma mesa de negociação.

Celina manda seu recado

A reação da governadora também possui evidente dimensão política.

Celina está disputando a reeleição e sabe que uma greve no transporte coletivo poucos dias antes da votação pode dominar o debate público.

Foi justamente por isso que decidiu reagir imediatamente.

Não prometeu aumento, não anunciou mudança tarifária e também não fechou as portas para negociação.

Preferiu estabelecer publicamente uma condição: o governo conversa, mas não aceita decidir sob aquilo que a governadora considera pressão eleitoral.

“Não tenho medo”, afirmou Celina ao comentar a possibilidade de paralisação.

A frase resume a estratégia adotada diante da crise.

Agora, governo, empresas e sindicato terão poucos dias para encontrar uma saída.

Se houver acordo, o DF evita uma paralisação às vésperas das eleições.

Se não houver, Brasília poderá começar justamente a última semana da campanha eleitoral enfrentando uma greve em um de seus serviços mais essenciais.

E, nesse embate, Celina já deixou registrada sua posição: está disposta a dialogar, mas não pretende aceitar que a proximidade das urnas seja utilizada para obrigar o governo a tomar uma decisão.

Da redação por Jorge Poliglota…

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