Karina Gama afirma em documento encontrado pela Polícia Federal que foi procurada por diferentes pessoas para discutir uma colaboração premiada. Empresária diz que Fernando Sarney alegou proximidade com Flávio Dino e ofereceu apoio jurídico; ela, porém, ressalva não ter provas de participação do ministro
O caso envolvendo o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou um capítulo que pode provocar forte repercussão política e exigir esclarecimentos das autoridades responsáveis pela investigação.
Karina Gama, proprietária da Go Up Entertainment e responsável pela produção do longa, registrou em documento que teria sofrido sucessivas abordagens para realizar uma colaboração premiada relacionada às investigações sobre o financiamento do filme.
O documento, de quatro páginas, foi encontrado pela própria Polícia Federal durante uma operação de busca e apreensão realizada contra a empresária. Segundo relatos publicados pela imprensa, Karina havia formalizado a declaração anteriormente, registrando sua versão dos acontecimentos.
Entre as pessoas citadas por ela está Fernando Sarney, empresário e filho do ex-presidente José Sarney.
Segundo Karina, o primeiro contato ocorreu em maio. Ela afirma que Fernando Sarney teria se apresentado como alguém com grande proximidade do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino e oferecido apoio jurídico caso tivesse interesse em realizar uma delação premiada.
A produtora diz que recusou a possibilidade porque sustenta não ter praticado irregularidades que justificassem uma colaboração.
A denúncia é grave e merece investigação. Mas existe uma diferença fundamental entre o que efetivamente está documentado e aquilo que ainda precisa ser provado.
Karina não afirma ter presenciado qualquer ordem de Flávio Dino para que Fernando Sarney a procurasse. Pelo contrário: em seu próprio relato, ela ressalva não possuir elementos para afirmar que o ministro tivesse conhecimento, participação ou envolvimento na abordagem.
Fernando Sarney, por sua vez, nega as acusações.
Não foi apenas uma abordagem
O aspecto que aumenta a gravidade do relato é que Fernando Sarney não teria sido o único interlocutor.
Karina afirma que também foi procurada por um pastor evangélico conhecido e por um jornalista. Segundo sua versão, em diferentes momentos teria surgido o mesmo assunto: a possibilidade de uma colaboração premiada.
No caso do pastor, a empresária relata que ele teria mencionado proximidade com integrantes do governo federal e ministros do Supremo. Segundo Karina, teria sido apresentada a possibilidade de delatar como uma maneira de evitar uma eventual “complicação” judicial.
A produtora interpretou a sequência de contatos como uma forma de pressão.
E é justamente nesse ponto que surge a questão mais delicada.
Karina sustenta que, para realizar a colaboração que lhe era sugerida, teria de admitir irregularidades que afirma não terem ocorrido. Na interpretação apresentada por ela no documento, isso equivaleria a mentir.
Isso não significa que esteja comprovada uma tentativa organizada de fabricar uma delação contra Flávio Bolsonaro. Significa, porém, que existe agora um relato formal da própria investigada descrevendo abordagens que, se confirmadas nos termos narrados, merecem apuração independente.
Documento estava pronto antes da operação
Há ainda uma circunstância que chama atenção.
O documento relatando as supostas pressões não surgiu como reação pública depois da busca da Polícia Federal. Segundo as informações divulgadas, a declaração havia sido assinada em 4 de setembro e acabou encontrada pelos próprios policiais durante a operação.
Essa cronologia é relevante porque demonstra que a empresária já havia decidido registrar sua versão sobre os contatos antes de o documento ser apreendido.
Isso, evidentemente, não transforma automaticamente suas declarações em fatos comprovados. Registro documental comprova que determinada declaração foi feita em determinado momento; não comprova, sozinho, a veracidade de tudo aquilo que foi narrado.
Mas cria um elemento que dificilmente poderá simplesmente ser ignorado pelas autoridades.
Afinal, quem procurou Karina e com qual objetivo?
O episódio levanta perguntas que precisam ser respondidas com documentos, depoimentos e provas.
Fernando Sarney efetivamente ofereceu apoio relacionado a uma colaboração premiada? Em que contexto ocorreu a conversa? Por que mencionaria, segundo Karina, sua proximidade com Flávio Dino? Houve outros intermediários? Os contatos foram iniciativas particulares ou existia alguém por trás das abordagens?
E, principalmente: houve tentativa de induzir uma investigada a apresentar fatos que não aconteceram?
São questões sérias demais para serem respondidas por especulação política.
Da mesma maneira, seria precipitado atribuir responsabilidade a Flávio Dino apenas porque seu nome teria sido mencionado por um terceiro. A eventual existência de proximidade política ou pessoal não demonstra participação em qualquer iniciativa ilegal.
Mas exatamente por envolver o nome de um ministro do STF e uma investigação com enorme repercussão eleitoral, a transparência na apuração torna-se ainda mais necessária.
Dark Horse virou um problema muito maior que um filme
A investigação sobre Dark Horse começou concentrada principalmente no financiamento da produção e na suspeita de eventual utilização irregular de recursos.
O longa tornou-se politicamente explosivo depois das revelações envolvendo recursos ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e das investigações sobre a origem e o destino do dinheiro empregado na produção.
Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, também passou a ser atingido politicamente pelas investigações em razão de sua participação nas tratativas para obtenção de recursos destinados ao projeto.
Agora surge uma questão completamente diferente.
Se antes o debate era sobre quem financiou o filme e de onde veio o dinheiro, a nova denúncia coloca outra pergunta sobre a mesa: houve pressão sobre uma investigada para produzir uma colaboração premiada contra um candidato à Presidência?
São assuntos distintos e precisam permanecer assim.
Uma eventual irregularidade no financiamento de Dark Horse deve ser investigada até o fim. Da mesma forma, qualquer tentativa de constranger alguém a produzir uma delação falsa, caso comprovada, também precisaria ser rigorosamente investigada.
Delação premiada não pode ser instrumento de fabricação de provas
A colaboração premiada é um instrumento legítimo previsto na legislação brasileira, mas possui limites.
Um colaborador precisa fornecer informações verificáveis, documentos, caminhos investigativos e elementos que possam ser confirmados por outras provas. Uma acusação feita em delação não transforma automaticamente o acusado em culpado.
Muito menos seria admissível utilizar a ameaça de investigação, prisão ou operação policial para obrigar alguém a inventar fatos.
É justamente por isso que o relato de Karina precisa ser tratado com seriedade, mas também com responsabilidade.
Não cabe condenar antecipadamente Fernando Sarney, Flávio Dino ou qualquer outra pessoa mencionada. Tampouco cabe simplesmente desprezar o documento porque sua autora é investigada.
O caminho correto é investigar o próprio relato.
Um caso que agora exige respostas
O episódio Dark Horse entrou em terreno ainda mais sensível.
De um lado está uma investigação que envolve o financiamento de um filme ligado à família Bolsonaro e que precisa seguir independentemente de interesses eleitorais.
Do outro, aparece agora uma empresária investigada afirmando ter recebido diferentes abordagens para fazer uma colaboração premiada e dizendo temer consequências caso não aceitasse.
A gravidade está justamente na possibilidade levantada — ainda não comprovada — de que uma investigação criminal possa ter sido utilizada como instrumento de pressão política.
Por isso, a pergunta central não deve ser respondida pelas torcidas partidárias.
Deve ser respondida pelas provas.
Quem procurou Karina Gama? O que exatamente foi oferecido? Quem sabia desses contatos? Existiam intermediários? E havia algum interesse em obter uma acusação contra Flávio Bolsonaro independentemente da existência de fatos verdadeiros?
Se as respostas demonstrarem que nada irregular aconteceu, isso precisa ficar claro.
Mas, se existiu pressão para fabricar acusações, estaremos diante de um episódio de gravidade institucional muito maior do que a própria controvérsia sobre o financiamento de Dark Horse.
A investigação que buscava respostas sobre um filme agora tem diante de si uma denúncia que também precisa ser esclarecida: se alguém tentou transformar colaboração premiada em instrumento para produzir uma acusação política, descobrir quem fez isso e por quê passou a ser parte indispensável da busca pela verdade.
Da redação…




