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O cerco das evidências: mensagens e fotos colocam em xeque versão de Lula sobre Roberta Luchsinger

Presidente afirmou na TV que nunca tinha visto a lobista e que ela jamais esteve próxima dele; fotografias, registros de entrada no Planalto e mensagens atribuídas a Roberta apresentam uma versão muito diferente dessa história

A frase foi categórica.

Durante sabatina da TV Globo, em 27 de agosto, o presidente Lula afirmou que não conhecia Roberta Luchsinger, lobista investigada em inquéritos que também envolvem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

“Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim”, declarou o presidente.

Lula foi além e chamou Roberta de “pilantra”.

O problema para o presidente é que, desde então, uma sucessão de informações divulgadas pela imprensa passou a confrontar diretamente a contundência dessa versão.

Primeiro apareceram fotografias de Roberta ao lado de Lula. Agora, mensagens de WhatsApp obtidas pelo Metrópoles revelam uma sequência de relatos nos quais a própria lobista dizia frequentar o Palácio do Planalto, estar na residência presidencial, viajar em aeronaves da FAB e permanecer na “sala do pai do Fábio” — expressão que, segundo as conversas divulgadas, ela utilizava para se referir a Lula.

Uma mensagem isolada poderia ser bravata.

Duas fotografias poderiam ser explicadas como encontros ocasionais com uma figura pública.

Mas quanto maior se torna o conjunto de registros, mais explicações são necessárias para conciliar tudo isso com uma declaração tão absoluta quanto “nunca vi essa moça na minha vida”.

“Fomos de aero Lula para Brasília”

Uma das conversas mais chamativas é de março de 2023.

Roberta conversava com a própria mãe quando escreveu:

“Fomos de aero lula para Brasília rsrs.”

A mãe perguntou em áudio:

“Ah, meu Deus, o que que é isso, aero lula? É o avião do Lula?”

Roberta respondeu:

“Avião do Lula kkkkk.”

O diálogo, evidentemente, não prova sozinho que ela estivesse em uma aeronave presidencial ou que Lula tivesse autorizado qualquer transporte. A expressão “aero Lula” é da própria Roberta e precisa ser tratada como tal.

Mas existe um elemento verificável na mesma sequência de acontecimentos.

Roberta enviou uma fotografia feita de dentro do Palácio do Planalto. E registros oficiais obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação confirmam que ela entrou no prédio em 22 de março de 2023, às 15h37.

Portanto, independentemente da natureza do voo, sua presença no Planalto não depende apenas da palavra da lobista.

Ela esteve lá.

“Tô no palácio”

As mensagens seguintes tornam o contraste com a versão presidencial ainda mais evidente.

Em 11 de junho de 2025, Roberta escreveu para uma advogada identificada como “Dra. Camila”:

“Tô no palácio, não consigo escrever mto pq to na sala do pai do Fábio.”

“Pai do Fábio” era a maneira como Roberta se referia a Lula em diferentes conversas divulgadas.

Em outro diálogo, a lobista fez uma afirmação ainda mais direta:

“Ele (Lula) volta à ativa segunda. Estive com ele semana passada pq tava lá com Fábio, filho dele.”

Essa mensagem não constitui, isoladamente, prova independente de que o encontro ocorreu exatamente como ela descreveu.

Mas novamente aparece o mesmo problema para a versão apresentada pelo presidente: não se trata de uma única referência perdida em milhares de mensagens.

Existe uma sequência.

“Ainda aqui na casa do pai do Fábio”

Há também referências à residência presidencial.

Em 21 de outubro de 2023, Roberta escreveu:

“Vamos pra lá quarta de novo. Aniversário dele (sic) dia 27.”

Lula nasceu em 27 de outubro.

Quatro dias depois, em 25 de outubro, ela informou a um contato identificado como “Gustavo Oliveira”:

“Ainda aqui na casa do pai do Fábio.”

E acrescentou:

“Vamos embora jaja.”

A mensagem foi enviada às 23h16.

No ano seguinte, aparece novamente a expressão.

Em 22 de outubro de 2024, conversando com um contato identificado como “Magalhães”, Roberta afirmou:

“Deixa eu te falar, eu tô indo pra Brasília agora. Tivemos que antecipar nossa viagem por causa do pai do Fábio. Pediu pra ele hoje. Então nós estamos indo agora.”

Na sequência, explicou:

“Como ele ia viajar e teve o tombo, caiu da cadeirinha tomando banho. Acho que você viu na mídia. Ele pediu pra antecipar.”

O contexto é relevante porque Lula havia sofrido uma queda no banheiro três dias antes, em 19 de outubro, fato amplamente divulgado na ocasião.

Mais uma vez, isso não comprova automaticamente que tudo o que Roberta dizia aos interlocutores fosse verdadeiro.

Mas aumenta a necessidade de uma explicação convincente.

E existem fotografias

Talvez esse seja o elemento mais difícil de conciliar com a frase “nunca vi essa moça na minha vida”.

Após a entrevista de Lula, adversários recuperaram imagens de Roberta ao lado do presidente.

O próprio Metrópoles localizou pelo menos duas fotografias publicadas pela lobista em seu Instagram em 2023. Uma delas foi feita em 29 de agosto e outra em 27 de outubro, aniversário do presidente.

Existe ainda um registro anterior no qual Roberta aparece ao lado de Lula e Janja.

Fotografar-se com alguém evidentemente não demonstra amizade, intimidade ou participação conjunta em qualquer irregularidade. Presidentes tiram milhares de fotografias com pessoas que mal conhecem.

Mas essa ressalva não resolve completamente o problema criado pela escolha das palavras de Lula.

O presidente não disse apenas que não era amigo de Roberta.

Não disse apenas que não mantinha relações profissionais com ela.

Não disse apenas que desconhecia as atividades atribuídas à lobista.

Disse:

“Nunca vi essa moça na minha vida.”

As fotografias mostram que, literalmente, os dois já estiveram frente a frente.

FAB aparece repetidamente nas conversas

Outro capítulo que precisa de esclarecimentos envolve aeronaves da Força Aérea Brasileira.

Em 1º de novembro de 2023, Roberta disse a uma assessora do governo da Bahia que estaria viajando “de FAB” juntamente com o filho do presidente.

Segundo a mensagem:

“Então, a gente vai estar de FAB, e aí eu não consigo administrar esses horários de voo, porque a gente embarca pela base aérea, entendeu? (…). Porque eu não vou estar de voo comercial, não vou estar embarcando na parte normal.”

Em fevereiro de 2024, voltou a mencionar esse tipo de transporte.

Ao conversar com um cliente de sua consultoria, afirmou:

“Mas estamos voltando de FAB.”

O contexto era uma viagem relacionada a uma “reunião final da ONU”.

Também aqui é indispensável separar afirmação de comprovação.

O Metrópoles verificou que, naquele período, Roberta esteve na Suíça com suas filhas, Lulinha e familiares dele. O grupo chegou a Genebra em voo comercial, e o retorno da Europa ao Brasil ocorreu pela TAP.

Portanto, a declaração de Roberta sobre estar “voltando de FAB” não deve ser transformada automaticamente em fato comprovado sem que registros oficiais do voo demonstrem isso.

Quanto mais aparecem documentos, mais difícil fica sustentar uma negativa absoluta

É aqui que o problema deixa de ser exclusivamente policial e passa a ser político.

Roberta Luchsinger é investigada. Lulinha também aparece em investigações. Nenhuma dessas circunstâncias significa culpa antecipada, e as suspeitas precisam ser comprovadas dentro do devido processo legal.

Mas Lula é candidato à reeleição.

E quando um presidente candidato decide responder a uma controvérsia com uma negativa absoluta, assume também o risco político de ser confrontado posteriormente por documentos.

Foi exatamente o que aconteceu.

A negativa de Lula já havia causado preocupação dentro de seu próprio campo político. Após a sabatina, aliados ouvidos pelo Metrópoles apontaram justamente a declaração sobre Roberta como um dos riscos assumidos pelo presidente, porque fotografias dos dois juntos já eram conhecidas.

Agora surgem mensagens que adicionam novas perguntas.

Planalto passa a fazer parte da história

Talvez o aspecto mais grave politicamente não seja saber se Lula lembrava ou não de ter tirado uma fotografia com Roberta.

A questão maior é outra:

até onde chegava o acesso da lobista ao núcleo do poder?

  • Existe registro oficial de entrada no Palácio do Planalto.
  • Existem mensagens em que Roberta afirma estar dentro do Palácio.
  • Existem conversas nas quais diz estar na sala do presidente.
  • Existem referências a encontros na residência presidencial.
  • Existem afirmações sobre viagens pela FAB.
  • Existe uma relação documentada entre Roberta e Lulinha suficientemente próxima para que ela apresentasse o filho do presidente como seu “sócio” perante terceiros, embora não exista empresa formal conjunta entre os dois.

É exatamente essa combinação que transforma o caso em um problema para o governo.

Investigações chegam ao entorno presidencial

Roberta e Lulinha aparecem em investigações que tramitam no Supremo e apuram suspeitas relacionadas, entre outros pontos, a possível tráfico de influência em negócios envolvendo órgãos federais.

Essas são suspeitas sob investigação, e não condenações.

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal e divulgadas pela imprensa também revelaram conversas sobre negócios e despesas de Lulinha. Em um dos episódios, Roberta afirmou que deixaria de custear passagens do filho do presidente e relatou alternativas discutidas para essas despesas.

O presidente reagiu acusando a Polícia Federal de promover vazamentos de investigação sigilosa para a imprensa.

A acusação também criou constrangimento político porque a PF está subordinada ao Ministério da Justiça e seu diretor-geral, Andrei Rodrigues, é considerado pessoa de confiança do próprio presidente.

Uma campanha obrigada a responder ao passado todos os dias

É aqui que a sucessão de revelações começa a atingir a estratégia eleitoral de Lula.

O presidente gostaria naturalmente de disputar a reeleição discutindo emprego, renda, programas sociais, obras e realizações de seu governo.

Mas as investigações envolvendo pessoas de seu entorno passaram a disputar espaço na agenda pública.

E existe uma característica especialmente perigosa nesse tipo de crise: cada nova revelação obriga a campanha a voltar ao assunto anterior.

Lula disse que nunca viu Roberta.

Apareceram fotografias.

Disse que ela jamais esteve próxima dele.

Agora aparecem mensagens nas quais ela afirma frequentar o Planalto, estar em sua sala e visitar sua residência.

Isso não prova automaticamente que todas as afirmações de Roberta sejam verdadeiras. Também não demonstra que Lula tivesse conhecimento de eventuais irregularidades investigadas.

Mas torna politicamente insuficiente uma defesa baseada apenas em negar qualquer proximidade.

A oposição encontrou um ponto vulnerável

Os adversários presidenciais perceberam rapidamente o potencial do episódio.

Após Lula dizer que nunca tinha visto Roberta, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Renan Santos e outros adversários passaram a divulgar as fotografias da lobista ao lado do presidente e a questionar publicamente sua declaração.

A estratégia é previsível: transformar cada nova informação das investigações em questionamento sobre a credibilidade do presidente.

Isso não significa que essa narrativa determinará o resultado eleitoral. Tampouco é possível atribuir eventual oscilação nas pesquisas exclusivamente ao caso Luchsinger sem dados específicos que demonstrem essa relação causal.

Mas existe um custo político evidente.

Um candidato pode discutir a interpretação de uma investigação. Pode contestar uma acusação. Pode questionar a credibilidade de uma testemunha.

É muito mais complicado explicar uma declaração objetiva quando surge uma fotografia mostrando justamente o contrário do sentido literal de suas palavras.

A questão que Lula ainda precisa esclarecer

O debate, portanto, já ultrapassou a pergunta simplista sobre conhecer ou não conhecer Roberta Luchsinger. Os fatos conhecidos permitem formular questões muito mais importantes:

  • Quantas vezes Roberta esteve no Palácio do Planalto?
  • Ela esteve efetivamente na sala do presidente?
  • Frequentou a residência presidencial nas ocasiões mencionadas nas mensagens?
  • Em quais circunstâncias viajou ou afirma ter viajado em aeronaves da FAB?
  • Quem autorizou essas viagens?
  • Qual era a natureza do relacionamento dela com Lulinha?
  • E Lula tinha conhecimento das atividades que seu filho e a lobista desenvolviam em Brasília?

Responder a essas perguntas com documentos será muito mais relevante do que discutir se uma fotografia significa amizade.

Porque o ponto politicamente mais delicado já não é uma foto. É a diferença crescente entre uma negativa presidencial absoluta e um conjunto cada vez maior de registros que exige explicações.

Lula afirmou diante de milhões de brasileiros:

“Nunca vi essa moça na minha vida.”

As fotografias mostram que ele já esteve ao lado dela.

As mensagens mostram que Roberta dizia circular muito mais perto do presidente do que aquela declaração sugeria.

Agora cabe às investigações estabelecer quais dessas afirmações correspondem aos fatos e se houve alguma irregularidade.

Mas, para a campanha de Lula, existe uma consequência que independe de condenação judicial: cada documento que contradiz ou coloca em dúvida uma declaração anterior transforma a defesa política em uma tarefa mais difícil — justamente quando faltam poucos dias para o eleitor decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos.

Da redação por Jorge Poliglota com informações Metropoles/Blog Claudio Dantas

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