Imagem encontrada pela Polícia Federal mostra procurador-geral com charuto à mesa com o ex-dono do Banco Master; oposição questiona declarações feitas dias antes no Supremo, enquanto Gonet sustenta que encontro foi coletivo, público e sem relação profissional
Uma fotografia recuperada pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro acrescentou um novo ingrediente à controvérsia envolvendo o Banco Master e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A imagem mostra o chefe da PGR sentado à mesma mesa que o banqueiro, em Londres, segurando um charuto, durante encontro realizado em abril de 2024. A autenticidade da fotografia foi confirmada pela assessoria da própria Procuradoria-Geral da República.
Isoladamente, uma fotografia em um evento social não comprova amizade, favorecimento ou qualquer irregularidade. O peso político do registro está, porém, no momento em que ele se tornou público e na comparação inevitável com as explicações dadas pelo próprio Gonet poucos dias antes.
Na terça-feira (15), durante a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal que discutia questões relacionadas ao relatório da PF envolvendo Alexandre de Moraes e Vorcaro, Gonet foi categórico ao negar proximidade com o ex-dono do Master. Disse que não existia nem havia existido “relacionamento de proximidade” entre os dois e afirmou que o único encontro ocorreu justamente em abril de 2024, na presença de várias autoridades. Também classificou uma ligação intermediada por advogado como “brevíssima e banal”.
É justamente essa declaração que agora está sendo confrontada politicamente com a fotografia.
Charuto, uísque e uma imagem politicamente incômoda
Segundo informações divulgadas pela imprensa, o registro foi feito em 25 de abril de 2024, no George Club, estabelecimento privado localizado em Mayfair, área nobre de Londres. A imagem mostra Vorcaro e Gonet acompanhados de outras pessoas, diante de uma mesa com bebidas. Reportagens apontam que o encontro ocorreu no contexto de evento patrocinado pelo Banco Master.
A defesa de Gonet é objetiva: tratava-se de um evento com diversas autoridades e, naquele momento, segundo sua manifestação posterior, não havia informação pública que tornasse problemática sua presença ao lado do empresário. O procurador-geral também afirma não possuir amizade com Vorcaro nem interesse pessoal nos procedimentos envolvendo o banqueiro.
Esse contraponto precisa ser registrado. A fotografia, por si só, não demonstra que Gonet tenha mentido ao STF, tampouco prova que existisse uma relação privada entre os dois.
Mas existe uma questão institucional difícil de ignorar: a aparência de independência também importa para quem ocupa a chefia do Ministério Público Federal, principalmente quando o personagem fotografado posteriormente se torna parte central de investigações que chegam às mais altas autoridades da República.
E é exatamente nesse terreno que a crise política se instala.
Foto surge após sessão decisiva no Supremo
O momento da divulgação aumentou ainda mais sua repercussão.
Na sessão de 15 de setembro, o STF analisava uma questão processual relacionada à Petição 16.662, originada de relatório da Polícia Federal produzido a partir de informações extraídas do celular de Vorcaro e contendo supostos diálogos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes. O mérito sobre eventual investigação de Moraes não chegou a ser decidido: Flávio Dino pediu vista enquanto o plenário discutia se a Petição 16.662 deveria tramitar conjuntamente com a Petição 16.704.
Foi nesse ambiente que Gonet decidiu falar publicamente sobre sua própria relação com Vorcaro.
Dias depois, a fotografia ganhou as manchetes.
Não é difícil compreender por que a imagem se tornou combustível para os adversários políticos do procurador-geral. Entre ouvir no plenário que não havia “relacionamento de proximidade” e posteriormente ver uma fotografia descontraída de Gonet e Vorcaro numa mesa de charutos e bebidas em Londres existe um contraste visual politicamente poderoso — embora, juridicamente, a fotografia não seja prova suficiente de amizade ou atuação imprópria.
Oposição parte para cima de Gonet
A repercussão foi imediata entre políticos da oposição.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou suas redes sociais para questionar diretamente a explicação apresentada pelo procurador-geral e cobrou também um novo posicionamento de Gilmar Mendes, que havia defendido publicamente a reputação de Gonet. O episódio tem uma nuance relevante: o próprio Nikolas também já apareceu em diálogos divulgados pela imprensa tratando Vorcaro de maneira informal e solicitando que o banqueiro analisasse determinada situação empresarial.
Romeu Zema (Novo), candidato à Presidência, também explorou politicamente o episódio. Ele recuperou a manifestação anterior de Gonet no STF e relacionou a fotografia à posição adotada pelo procurador-geral durante o julgamento.
Flávio Bolsonaro (PL), também candidato à Presidência, compartilhou a imagem e fez críticas ao governo Lula e às relações de autoridades com Vorcaro. Também nesse caso existe contexto adicional: investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, revelaram mensagens entre Flávio e o ex-dono do Master.
Esses antecedentes não eliminam os questionamentos dirigidos a Gonet, mas demonstram como Daniel Vorcaro circulou por diferentes ambientes políticos e institucionais — inclusive entre personagens que hoje se encontram em campos adversários.
O problema maior é a confiança
O aspecto mais delicado do episódio talvez não esteja no charuto, no copo sobre a mesa ou sequer no fato de Gonet ter participado daquele encontro.
Está na necessidade de esclarecer, de maneira verificável, qual era efetivamente a extensão do relacionamento entre o procurador-geral e Vorcaro.
A Polícia Federal encontrou referências feitas por terceiros a Gonet. Em mensagens, o advogado Ciro Soares aparece intermediando contatos e chegou a escrever a Vorcaro frases sugerindo proximidade. Gonet contesta qualquer interpretação nesse sentido e argumenta, corretamente do ponto de vista lógico, que não pode responder pelo que terceiros dizem entre si.
É justamente por isso que o caso exige fatos, documentos e esclarecimentos, e não conclusões precipitadas.
O Conselho Superior do Ministério Público Federal tem sessão prevista para 25 de setembro para analisar procedimento relacionado às menções envolvendo Gonet e Vorcaro. Em manifestação encaminhada ao órgão, o procurador-geral afirmou não possuir amizade com o banqueiro e disse considerar-se plenamente apto a atuar nos procedimentos referentes ao Banco Master.
A fotografia de Londres não oferece, sozinha, resposta definitiva para essas questões. Mas torna mais difícil encerrar o debate simplesmente afirmando que tudo não passou de um contato irrelevante.
Para uma instituição cuja autoridade depende justamente da confiança pública em sua independência, transparência não deveria ser tratada como inconveniente. Quanto mais sensível o cargo, maior deve ser a disposição para esclarecer relações que possam levantar dúvidas legítimas.
E, depois da fotografia de Londres, é exatamente isso que Gonet terá de enfrentar: não uma condenação produzida por uma imagem, mas uma cobrança pública para demonstrar, com fatos, onde terminou a mera convivência institucional e qual foi, de fato, a natureza de seus contatos com Daniel Vorcaro.
Da redação…




