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EDITORIAL | Quando o debate vira ringue, quem perde é o eleitor

Por Jorge Poliglota…

Confrontos eleitorais deveriam ajudar a população a escolher projetos para saúde, segurança, educação e transporte. Quando ataques pessoais ocupam o lugar das propostas, a democracia perde uma de suas melhores oportunidades de informar o voto

Os debates eleitorais na televisão deveriam cumprir uma função bastante simples: colocar candidatos frente a frente para que o cidadão consiga comparar ideias, propostas, realizações, contradições e capacidade de responder aos problemas reais da população.

Na prática, porém, parte dos encontros desta campanha no Distrito Federal tem revelado outro fenômeno. O confronto de projetos divide espaço — algumas vezes excessivo — com acusações, provocações e ataques pessoais.

E quando isso acontece, existe um grande prejudicado que quase nunca está no estúdio: o eleitor.

Quem liga a televisão a poucos dias da eleição não precisa assistir a uma batalha de egos. Precisa saber quem tem o melhor plano para reduzir filas na saúde, melhorar o transporte, fortalecer a segurança, ampliar empregos, enfrentar os problemas habitacionais e administrar bilhões de reais do orçamento público.

É para isso que deveria servir um debate.

Criticar governo faz parte. Ataque pessoal é outra coisa

É fundamental estabelecer essa diferença.

Quem governa precisa ser questionado. Celina Leão (PP), como governadora e candidata à reeleição, deve responder pelas decisões tomadas em sua administração e pelas responsabilidades que juridicamente e politicamente lhe cabem.

Da mesma forma, José Roberto Arruda (PSD), Leandro Grass (PT), Ricardo Cappelli (PSB), Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo) precisam ser confrontados sobre seus históricos, propostas, alianças e capacidade de executar aquilo que prometem.

Esse é o jogo democrático.

O problema começa quando o questionamento de políticas públicas deixa de ser o centro e o espetáculo da acusação passa a valer mais que a resposta.

No debate da Band, por exemplo, a crise do BRB colocou Celina sob forte pressão dos adversários, além de haver cobranças sobre saúde e outras áreas da administração. A própria governadora disse naquela ocasião sentir-se transformada em alvo do encontro.

No debate promovido pelo Metrópoles, a cobertura também registrou trocas de acusações, ao mesmo tempo em que houve apresentação de propostas. Outra publicação sobre o encontro relatou ataques envolvendo inclusive famílias, mulheres e jornalistas.

O problema, portanto, não é perguntar.

É substituir a pergunta pela agressão.

Celina virou alvo preferencial

Existe uma razão política bastante compreensível para que Celina receba mais questionamentos.

Ela ocupa atualmente o Palácio do Buriti. Além disso, chega à reta final liderando levantamentos eleitorais recentes. Uma cobertura publicada nesta quarta-feira (23), por exemplo, registra sua liderança e destaca que sua campanha vem apresentando propostas para mobilidade, infraestrutura, regularização, saúde e fortalecimento do BRB.

É natural, portanto, que adversários concentrem críticas na candidata que ocupa o governo e está à frente na disputa.

O que merece reflexão é como isso está sendo feito.

Uma coisa é perguntar a Celina sobre o BRB, saúde, orçamento, transporte ou qualquer problema existente no Distrito Federal.

Outra completamente diferente é transformar cada bloco em uma tentativa de produzir uma frase explosiva, uma acusação pessoal ou um confronto destinado mais às redes sociais do dia seguinte do que ao esclarecimento do eleitor.

Aliás, o próprio secretário de Comunicação do GDF, Weligton Moraes, já havia reclamado publicamente que os primeiros debates haviam se transformado, na avaliação dele, em um “campo de batalha”, defendendo maior espaço para propostas. Trata-se da posição de um integrante do governo, portanto deve ser compreendida como tal, mas a crítica coincide com relatos jornalísticos sobre a intensidade dos confrontos.

Ausentar-se do debate também tem consequências

Nesse ambiente, surge outra discussão: Celina estaria certa ao decidir não comparecer a determinados debates?

Politicamente, é compreensível que uma campanha avalie custos e benefícios de cada participação. No debate da Record desta semana, por exemplo, Celina não compareceu; sua assessoria atribuiu a ausência às atividades inerentes ao cargo de governadora. Os outros cinco candidatos participaram e criticaram sua ausência.

Mas ausência também tem um preço democrático.

Debate não pertence aos candidatos. Pertence ao eleitor.

Mesmo quando um encontro se torna hostil, comparecer oferece ao candidato a oportunidade de responder às críticas, contestar acusações e apresentar sua própria versão dos fatos.

Por isso, a responsabilidade não pode ficar somente com quem decide participar ou faltar.

As próprias emissoras precisam perguntar se o formato adotado está favorecendo esclarecimento ou simplesmente premiando quem consegue produzir a provocação mais barulhenta da noite.

Audiência não pode ser o único critério

Existe uma tentação evidente no modelo televisivo.

Confronto produz corte.

Provocação viraliza.

Uma frase agressiva circula nas redes sociais muito mais rapidamente do que cinco minutos explicando como financiar uma nova linha de metrô.

Só que eleição não é reality show.

Estamos escolhendo quem administrará hospitais, escolas, policiais, professores, transporte público, obras e um orçamento bilionário.

O debate eleitoral precisa ser interessante, obviamente. Mas existe uma diferença entre ser interessante e ser transformado deliberadamente em espetáculo.

A própria apresentação institucional de um dos debates realizados nesta campanha dizia que o objetivo era discutir saúde, educação, segurança, mobilidade, infraestrutura, desenvolvimento econômico e qualidade de vida. É justamente esse tipo de conteúdo que deveria ocupar o centro dos encontros.

O eleitor precisa sair sabendo mais — não mais confuso

Existe uma maneira simples de avaliar a qualidade de um debate.

Quando ele termina, pergunte ao telespectador:

Qual candidato apresentou a melhor solução para reduzir a fila de cirurgias?

Qual explicou como pretende financiar suas promessas?

Quem apresentou um projeto concreto para o transporte?

Qual candidato explicou o que fará pela segurança?

Quem apresentou números verificáveis?

Se o eleitor não consegue responder a essas perguntas, mas se lembra perfeitamente de quem chamou quem de mentiroso, incompetente ou qualquer outra coisa, alguma coisa deu errado.

E não apenas com os candidatos.

Deu errado com o formato.

Confrontar é necessário

Não estamos defendendo debates domesticados. Muito pelo contrário. E um bom debate precisa ser duro.

Candidato precisa ser confrontado com números, promessas antigas, contradições, decisões administrativas e alianças políticas.

Governante que busca reeleição precisa prestar contas.

Oposição precisa demonstrar que possui alternativa viável.

Mas existe uma enorme diferença entre confronto de ideias e guerra pessoal.

Perguntar a Celina sobre problemas de sua administração é jornalisticamente necessário.

Questionar Arruda sobre seu histórico político e situação jurídica também.

Cobrar de Grass, Cappelli, Belmonte e Caputo como pretendem financiar e executar suas propostas é igualmente indispensável.

Isso é debate.

Ataque pessoal não substitui nenhuma dessas perguntas.

Quem não apresenta projeto também precisa ser cobrado

Há ainda uma consequência frequentemente ignorada quando um candidato passa boa parte do debate atacando o adversário.

Ele deixa de falar sobre si próprio.

E isso deveria preocupar o eleitor.

Saber por que um candidato considera o outro ruim não responde à pergunta mais importante: por que ele próprio seria uma alternativa?

Oposição não pode significar apenas apontar defeitos de quem governa. É necessário apresentar soluções diferentes, explicar custos, estabelecer prioridades e demonstrar capacidade de execução.

Da mesma forma, quem está no governo não pode utilizar ataques sofridos como escudo contra questionamentos legítimos sobre sua administração.

As duas cobranças são perfeitamente compatíveis.

Menos ringue. Mais Distrito Federal.

Faltam poucos dias para o eleitor tomar uma decisão que produzirá consequências pelos próximos quatro anos.

É tempo demais para escolher alguém com base em uma frase de efeito.

Os candidatos ao Governo do Distrito Federal têm diante de si uma das unidades mais complexas da Federação, com enormes diferenças sociais entre regiões administrativas e desafios importantes na saúde, mobilidade, segurança, educação, habitação e desenvolvimento econômico.

É sobre isso que deveriam discutir.

Os debates ainda podem cumprir sua função.

Mas, para isso, candidatos precisam compreender que agressividade não é sinônimo de firmeza. Emissoras precisam criar formatos capazes de privilegiar respostas objetivas. E jornalistas precisam interromper a lógica segundo a qual toda acusação automaticamente merece mais espaço do que uma proposta.

No caso específico de Celina Leão, é legítimo que seus cinco adversários fiscalizem, questionem e confrontem a governadora.

Também é legítimo que ela responda.

O que não interessa ao eleitor é assistir a cinco pessoas tentando falar ao mesmo tempo, trocando acusações enquanto os problemas do Distrito Federal permanecem esperando do lado de fora do estúdio.

Debate eleitoral não deveria produzir vencedores no grito.

Deveria produzir eleitores mais informados.

Porque, no final, não é o candidato que precisa sair satisfeito do estúdio.

É o cidadão que precisa sair dali sabendo melhor em quem — e por quais razões — pretende votar.

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