Quando o argumento acaba, vêm os xingamentos e socos. O destempero do deputado Rogério Correia (PT-MG) na CPMI do INSS é a prova de que o “governo do amor” só funciona quando é para beneficiá-lo
A cena protagonizada pelo deputado Rogério Correia após a aprovação, na CPMI do INSS, da quebra de sigilos fiscal, bancário e telemático de Luís Cláudio Lula da Silva — o Lulinha — ultrapassa qualquer limite do embate democrático. Ao partir para agressões físicas e xingamentos contra o presidente da comissão, o senador Carlos Viana, o parlamentar do PT não apenas desrespeitou um colega de Congresso, mas atacou frontalmente a própria institucionalidade.
Independentemente de posições políticas, a decisão da comissão foi fruto de votação. Ganhou quem teve maioria. Simples assim. É assim que funciona o Parlamento — ou deveria funcionar. A quebra de sigilo, instrumento previsto na Constituição e frequentemente utilizado em CPIs e CPMIs, não é sentença de culpa, mas mecanismo de investigação. Transformar uma deliberação colegiada em pretexto para agressão é admitir que, quando o resultado desagrada, vale substituir o voto pela violência.
O episódio escancara uma postura recorrente de setores da base governista: a dificuldade em aceitar derrotas políticas. Quando vencem, celebram a democracia. Quando perdem, questionam a legitimidade, atacam adversários e, no caso mais grave, partem para o confronto físico. Esse comportamento revela não apenas intolerância, mas uma perigosa confusão entre governo e Estado — como se qualquer investigação envolvendo pessoas ligadas ao poder fosse automaticamente uma afronta pessoal ou institucional.
O mais grave é o simbolismo. A CPMI do INSS tem como objetivo apurar irregularidades que afetam milhões de brasileiros. Em vez de contribuir com argumentos técnicos, contrapontos jurídicos ou estratégias regimentais, o deputado optou pelo destempero. A imagem que fica é a de um parlamentar que não confia na força de suas próprias razões.
A democracia exige autocontrole, sobretudo de quem ocupa mandato popular. Divergências são naturais; agressões, jamais. O Parlamento não é ringue. Se a cada votação desfavorável a reação for o grito, o empurrão ou o soco, estaremos normalizando a barbárie política.
A base do governo pode discordar da quebra de sigilos. Pode recorrer, obstruir, judicializar, debater. O que não pode — e não deve ser relativizado — é transformar frustração política em violência. Porque quando representantes eleitos trocam o debate pelo punho, quem perde não é apenas o adversário da vez. É a própria democracia brasileira.
É de suma importância para a manutenção da democracia, do respeito e da ordem que o deputado seja denunciado ao Conselho de Ética, com punição exemplar. Não se ganha no grito… e muito menos na porrada!
Foto: Gazeta do Povo e vídeo Metropoles.com
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília




