A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de promover uma reunião no Palácio do Planalto envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República Paulo Gonet, o presidente do Banco Central e o diretor-geral da Polícia Federal levanta sérias e preocupantes questões institucionais. Mais do que um simples encontro de autoridades, o gesto soa como uma afronta direta aos princípios básicos da separação e da independência entre os Poderes da República.
Ao reunir, em um mesmo ambiente e sob a liderança do chefe do Poder Executivo, figuras centrais do Judiciário, do Ministério Público, de uma autarquia formalmente independente e da polícia judiciária, Lula ultrapassa uma linha sensível do Estado Democrático de Direito. A gravidade se intensifica diante da informação de que o encontro teria como pano de fundo investigações em andamento — justamente aquelas que, por definição constitucional, devem ocorrer longe de qualquer ingerência política.
A Constituição é clara ao estabelecer que os Poderes são independentes e harmônicos entre si, não subordinados. Quando o presidente da República convoca autoridades responsáveis por investigar, acusar, julgar ou conduzir políticas monetárias para discutir temas sensíveis relacionados a apurações em curso, cria-se um ambiente institucionalmente tóxico, no qual a autonomia funcional pode ser colocada em xeque, ainda que não haja interferência explícita.
No caso do Banco Central, cuja independência foi celebrada como um avanço institucional, a presença de seu presidente em uma reunião desse tipo reforça a percepção de que essa autonomia pode ser relativizada conforme a conveniência política. Já no âmbito da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, o risco é ainda maior: qualquer sinal de alinhamento ou coordenação política em investigações compromete a credibilidade dos órgãos e alimenta suspeitas de seletividade ou direcionamento.
Não se trata de discutir afinidades pessoais ou intenções declaradas, mas de preservar formas, limites e ritos que sustentam a confiança nas instituições. A democracia não se fragiliza apenas por atos ilegais, mas também por gestos simbólicos que corroem, pouco a pouco, as fronteiras que garantem o equilíbrio de poder.
Ao promover esse encontro, Lula assume um risco desnecessário e envia uma mensagem perigosa: a de que, em momentos críticos, os freios institucionais podem ser flexibilizados. Em um país com histórico de crises políticas e desconfiança nas instituições, esse tipo de iniciativa não fortalece a democracia — ao contrário, a expõe a mais um teste de resistência.
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília





