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OPINIÃO: Quem comemora antes da hora costuma perder a festa

A política brasileira é pródiga em produzir análises apressadas. Basta uma crise, um desentendimento ou uma declaração mais dura para que adversários corram a decretar o fim de uma liderança. Foi exatamente esse roteiro que parte da oposição no Distrito Federal passou a seguir após a exposição pública das divergências entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro.

Nos bastidores, houve quem enxergasse no episódio o início do desmoronamento de um projeto político cuidadosamente construído para 2026. Alguns chegaram a tratar como inevitável a desistência de Michelle da disputa por uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, como se uma turbulência familiar fosse suficiente para apagar anos de articulação política e um dos maiores patrimônios eleitorais da direita brasileira.

A realidade, porém, costuma ser bem menos conveniente para quem faz política baseado na ansiedade.

É verdade que o episódio gerou desgaste. Também é inegável que a exposição das divergências em redes sociais foi desnecessária e ofereceu munição aos adversários. Mas transformar um momento de tensão em sentença definitiva revela muito mais o desejo da oposição do que a realidade dos fatos.

Os sinais emitidos nos dias seguintes caminham em outra direção. Os discursos foram moderados, as pontes começaram a ser reconstruídas e o objetivo maior voltou ao centro das conversas: preservar a unidade do campo conservador para a disputa presidencial de 2026, projeto que Jair Bolsonaro trata como prioridade desde muito antes do calendário eleitoral.

O afastamento de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher também passou a ser interpretado por alguns como uma espécie de prenúncio de retirada da vida política. A leitura, no entanto, parece precipitada. Pessoas próximas à ex-primeira-dama descrevem o momento como um período de reflexão, e não de desistência. Afinal, a definição das candidaturas depende das convenções partidárias, que ainda ocorrerão, e o cenário permanece em construção.

É justamente esse detalhe que muitos parecem ignorar.

Na política, existe uma enorme diferença entre expectativa e realidade. E são poucos os ambientes onde essa diferença cobra um preço tão alto quanto o eleitoral.

Enquanto setores da esquerda comemoram antecipadamente e alguns concorrentes fazem contas imaginando um cenário sem Michelle Bolsonaro, o tabuleiro continua aberto. A senadora Leila Barros buscará a renovação do mandato, outras lideranças articulam seus espaços e diferentes nomes acompanham atentamente cada movimento do eleitorado e das alianças partidárias. Nada está consolidado.

A história recente da política brasileira ensina uma lição valiosa: eleições não se vencem nas redes sociais, muito menos em análises feitas no calor de uma crise. Vencem-se nas urnas, depois de meses de articulação, composição e convencimento do eleitor.

Quem hoje aposta que Michelle Bolsonaro está definitivamente fora da corrida ao Senado talvez esteja confundindo desejo com realidade. Até o encerramento das convenções partidárias, qualquer previsão definitiva é, no máximo, um exercício de especulação.

O eleitor também faria bem em desconfiar de diagnósticos absolutos. Em Brasília, onde alianças mudam rapidamente e adversários de ontem frequentemente dividem o mesmo palanque amanhã, decretar o fim de uma candidatura antes da hora costuma ser um erro recorrente.

Em política, sobretudo em ano eleitoral, não existe vitória antecipada. Existe apenas a disputa. E, até que todas as peças estejam definitivamente sobre o tabuleiro, quem faz festa antes da hora corre o sério risco de assistir, mais tarde, à comemoração dos outros.

Da redação por Jorge Poliglota…

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