Geraldo Alckmin resolveu falar — e falou como quem teme ser descartado. Ao mandar um recado à esquerda sobre a possibilidade de ser retirado da chapa de Lula em 2026, o vice-presidente expôs mais do que uma preocupação eleitoral: revelou a fragilidade de uma aliança construída muito mais pela conveniência do que pela coerência política.
Não é pouca coisa. Alckmin, que durante anos foi um dos críticos mais duros de Lula, chegando a chamá-lo publicamente de ladrão e corrupto, hoje ocupa a Vice-Presidência da República como símbolo da chamada “frente ampla”. Uma frente que, ao que tudo indica, nunca foi plenamente sólida. Foi um acordo pragmático, costurado para vencer uma eleição específica — e não um projeto político de longo prazo.
Ao afirmar, segundo relatos, que não pretende disputar cargo algum caso seja retirado da chapa, Alckmin tenta suavizar o tom dizendo que não se trata de ameaça e que apoiaria Lula mesmo assim. Mas o subtexto é claro: há desconfiança, há insegurança e há medo de ser usado e descartado quando deixar de ser útil. Em política, recados “não ameaçadores” costumam ser exatamente o contrário.
A esquerda que hoje acolhe Alckmin é a mesma que sempre o tratou como adversário ideológico, representante do tucanato, do conservadorismo paulista e do antipetismo histórico. A pergunta que fica é simples e incômoda: por que Alckmin acreditou que seria diferente agora? Ou, mais ainda, por que a esquerda manteria indefinidamente alguém que sempre simbolizou tudo o que ela dizia combater?
O episódio escancara a hipocrisia do discurso de ambos os lados. De um lado, Alckmin tenta se vender como leal, mesmo tendo passado anos atacando Lula com palavras duríssimas. Do outro, o PT e seus aliados usufruem de sua imagem moderada enquanto ela serve para ampliar votos e reduzir rejeição — mas sem qualquer garantia de reciprocidade futura.
No fim das contas, o recado de Alckmin não soa como firmeza, mas como sinal de fraqueza política. Quem entra numa aliança renegando o próprio passado, atacando antigas convicções e confiando apenas na conveniência momentânea, não deveria se surpreender com a possibilidade de traição. A política cobra, cedo ou tarde, o preço da incoerência.
**Poliglota é jornalista, especialista em políticas públicas do DF e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília





