**Por Rubens Pinheiro
Na avenida da polarização, o samba deu lugar ao culto. De um lado, a exaltação cega de uma figura pública; do outro, o escárnio gratuito contra quem ousa desertar da fileira.
A alegoria mais honesta deste desfile é a das latas herméticas. Pessoas confinadas em suas próprias verdades, lacradas para o diálogo, desfilando o isolamento sob o disfarce da festa. É o triunfo da Caverna de Platão em plena Sapucaí: um país de cegos, surdos e mudos que confunde sombra com realidade.
Enquanto o mal-estar borbulha entre os ridicularizados e o espetáculo estético tenta anestesiar as massas, a corrupção sistêmica segue latente, pulsando nos bastidores.
Por trás dos refletores, o grito é outro. É o grito dos invisíveis, dos famintos e dos doentes que não cabem no enredo. A realidade é dura, crua e não aceita purpurina: estamos todos enlatados, enquanto o verdadeiro Brasil agoniza no silêncio da exclusão.
A pergunta que fica: até quando a fantasia vai mascarar o abismo?
**Rubens Pinheiro é escritor e cidadão de bem. A palavra “CORRUPIÇÃO” com “i” mesmo ilustrando a foto de capa é só o sinônimo da cultura que o Brasil vive hoje!





