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Lula tenta se afastar de Moraes, mas crise no STF entra de vez no tabuleiro eleitoral de 2026

Presidente ressalta que ministro foi indicado por Michel Temer enquanto tensão no Supremo amplia a disputa de narrativas entre governo e oposição às vésperas da eleição

A crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de ser apenas um problema interno do Judiciário e passou a ocupar espaço relevante na disputa política de 2026. Em meio à repercussão dos acontecimentos envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procura marcar distância e lembrar publicamente um dado objetivo: Moraes não chegou ao Supremo por indicação de seus governos.

O ministro foi indicado para o STF em 2017 pelo então presidente Michel Temer. Já no atual mandato, Lula indicou Cristiano Zanin e Flávio Dino para a Corte.

A lembrança da origem da indicação ganhou importância política porque a relação institucional construída entre Lula e Moraes nos últimos anos passou a ser explorada por adversários do presidente. Uma análise publicada pela revista Veja nesta quarta-feira (16) interpreta as recentes manifestações de Lula justamente como uma tentativa de impedir que essa proximidade seja convertida em desgaste eleitoral.

Uma crise que ultrapassou os muros do Supremo

O pano de fundo é uma das mais delicadas crises recentes do STF. Na terça-feira (15), o plenário discutiu questões relacionadas à possibilidade de investigação de Moraes no contexto do caso Banco Master. A sessão terminou sem solução definitiva depois que Flávio Dino pediu vista, interrompendo a análise.

A reunião também expôs divergências incomuns entre integrantes da própria Corte. Houve confrontos envolvendo Moraes, André Mendonça, Gilmar Mendes, Flávio Dino e o presidente do tribunal, Edson Fachin. O debate incluiu questionamentos sobre procedimentos adotados no caso, relatoria e a forma como as apurações deveriam tramitar.

Um dos episódios de maior repercussão ocorreu durante o embate entre Gilmar Mendes e André Mendonça. A discussão extrapolou o plenário e rapidamente chegou às redes sociais, ampliando a exposição pública de uma divisão que normalmente permaneceria restrita aos debates jurídicos da Corte.

É justamente nesse ambiente que a posição de Lula adquire significado eleitoral.

Distância formal, proximidade política

Do ponto de vista histórico, não há dúvida sobre quem levou Moraes ao Supremo: Michel Temer. Politicamente, entretanto, a questão é mais complexa.

Durante os últimos anos, Lula e Moraes estiveram do mesmo lado em diferentes momentos de defesa das instituições após os ataques de 8 de janeiro de 2023 e diante das investigações relacionadas à tentativa de ruptura institucional. Essa convergência institucional facilitou a construção, sobretudo entre adversários do governo, de uma associação política entre o ministro e o presidente.

Agora, diante da controvérsia envolvendo Moraes, Lula tem interesse político evidente em ressaltar a diferença entre ter mantido interlocução com um ministro do Supremo e ser responsável por sua chegada à Corte. A primeira situação pertence à dinâmica institucional de seu governo; a segunda, historicamente, pertence ao governo Temer.

Esse movimento não significa necessariamente um rompimento entre Planalto e Supremo. Revela, sobretudo, como uma controvérsia originada no Judiciário passou a produzir consequências no ambiente eleitoral.

Oposição incorpora STF à campanha

Os adversários de Lula também perceberam o potencial político do episódio. A crise do Supremo já aparece no confronto eleitoral, enquanto diferentes lados procuram estabelecer suas próprias narrativas sobre responsabilidades e relações com os ministros envolvidos.

Isso transforma Moraes em personagem involuntário da eleição.

Para os opositores de Lula, interessa associar o presidente à atuação do ministro nos últimos anos. Para Lula, interessa estabelecer os limites dessa associação e lembrar que Moraes foi escolhido por outro presidente.

O resultado é uma disputa que provavelmente será travada menos sobre quem formalmente indicou cada ministro — informação facilmente verificável — e mais sobre qual relação política o eleitor atribui a cada personagem.

Crise começa a aparecer nas pesquisas

A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal já aparece como um componente da disputa eleitoral, embora os levantamentos disponíveis não permitam afirmar, isoladamente, qual será seu efeito sobre o voto até outubro.

Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada nesta quinta-feira (17), mostra que 49,5% dos entrevistados consideram que a crise no STF prejudica mais a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Outros 20,9% avaliam que o maior prejuízo recai sobre a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL). Para 14,4%, os dois são prejudicados igualmente; 6,7% entendem que a crise não prejudica nenhum dos candidatos; e 8,6% não souberam responder.

O levantamento da AtlasIntel ouviu 5.018 pessoas com 16 anos ou mais, pela internet, entre 11 e 16 de setembro de 2026. A pesquisa tem margem de erro de 1 ponto percentual, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06221/2026.

Os números ganham relevância quando observados em conjunto com a disputa presidencial. Pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 15 e 17 de setembro, encontrou Lula com 39% das intenções de voto no cenário de primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 36%. Os dois estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro do levantamento.

Em uma eventual disputa de segundo turno entre os dois candidatos, Lula registra 46%, contra 44% de Flávio Bolsonaro, novamente configurando empate técnico dentro da margem de erro.

O Datafolha entrevistou 2.002 eleitores em 125 municípios brasileiros, entre 15 e 17 de setembro de 2026. A pesquisa possui margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-04029/2026.

Os dois levantamentos medem aspectos diferentes. A AtlasIntel/Bloomberg perguntou diretamente aos entrevistados sobre quem seria mais prejudicado politicamente pela crise do STF, enquanto o Datafolha aferiu a intenção de voto na corrida presidencial. Por isso, os resultados não demonstram, por si só, uma relação de causa e efeito entre a crise no Supremo e eventuais oscilações eleitorais.

Ainda assim, considerados em conjunto, os dados mostram que o episódio envolvendo a Corte já está presente na percepção de parte do eleitorado justamente em um momento de disputa apertada entre os principais candidatos. A evolução das próximas pesquisas poderá indicar se essa percepção se traduzirá em mudança nas intenções de voto ou se permanecerá como mais um elemento do debate político-eleitoral.

O problema político agora é a associação de imagens

O episódio evidencia uma característica particular da eleição de 2026: o Supremo, mesmo sem disputar votos, tornou-se parte relevante do debate eleitoral.

Para Lula, simplesmente recordar que Michel Temer indicou Moraes pode resolver a questão factual, mas não necessariamente a questão política. O desafio de sua estratégia é enfrentar uma associação construída ao longo dos últimos anos e que seus adversários procuram reforçar durante a campanha.

Para a oposição, por sua vez, transformar a crise do STF em vantagem eleitoral depende de convencer o eleitor de que as controvérsias envolvendo integrantes da Corte possuem relação política direta com o atual governo — associação que o Planalto procura rejeitar.

A disputa, portanto, deixou de ser somente sobre quem indicou Alexandre de Moraes. Passou a ser sobre quem conseguirá definir, perante o eleitorado, o significado político da relação entre o ministro, o governo Lula e seus adversários.

E, enquanto o próprio Supremo não encerra as controvérsias que alimentaram a crise, essa batalha de narrativas tende a permanecer presente na campanha presidencial.

Da redação por Jorge Poliglota…

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