Impediu-se tentativa de altas autoridades de abafar indícios de alastramento da corrupção. A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas
Foi abalado o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas autoridades e a elite política do país em torno das evidências de alastramento da corrupção. A Polícia Federal, na esfera pública, e o jornalismo profissional, na sociedade, têm sido os responsáveis por fazer soar o alarme.
A esta altura, pode-se estimar o efeito da anestesia se ela ainda estivesse ativa. Com a sem cerimônia usada para suspender R$ 18,8 bilhões em multas da Lava Jato, Dias Toffoli teria enterrado qualquer investigação dos malfeitos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Passaria incólume a relação multimilionária do escritório da mulher de Alexandre de Moraes com o Banco Master, bem como a comunicação do ministro do Supremo com Vorcaro horas antes de ele ser preso, e seu banco, liquidado. Público e aposentados do INSS teriam sido privados de saber do furto de R$ 6,3 bilhões por quadrilhas enquistadas no Executivo federal. Não teriam visto a luz do dia os indícios de conexão entre o desfalque e um filho do presidente da República.
Não que as tentativas de abafar os escândalos e suas repercussões tenham cessado. O ministro Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos, decretada pela CPI do Crime Organizado, da empresa de Dias Toffoli que recebeu pagamentos de um fundo ligado a Vorcaro.
Seu colega Flávio Dino aliviou a barra de Fabio Luis Lula da Silva ao derrubar a quebra de seus sigilos, decidida pela CPI do INSS. Não há assinatura petista no pedido de CPI para investigar Toffoli e Moraes no Senado.
Elevou-se o custo do abafa, no entanto. Com a ferida exposta, cada atitude de autoproteção de autoridades e políticos reverte em mais desgaste institucional. Abafar tornou-se quase impossível. A Polícia Federal deu mostras de independência suficientes para assegurar que as investigações vão prosseguir a despeito de haver pressão contrária nas altas esferas. A condução de André Mendonça dos dois inquéritos —Master e INSS— tampouco indica concessões à acomodação.
É uma lástima que o ânimo corporativista subjugue o republicano nessa crise grave, que pela primeira vez engolfa dois juízes da mais alta corte. A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas, mesmo que isso implique atingir os próprios integrantes.
Esquivar-se da tarefa vai alimentar as correntes antissistema às portas da eleição nacional. E vai delegar a outros Poderes, de pendor plebiscitário, uma resposta que deveria vir embalada em diligência e equilíbrio.



