O desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo (15), na Marquês de Sapucaí, expõe muito mais do que uma celebração carnavalesca: revela, na prática, o tamanho do receio político e jurídico dentro do Partido dos Trabalhadores.
Nos bastidores, a elaboração de uma verdadeira “cartilha de comportamento” para militantes, dirigentes e simpatizantes deixa claro que a preocupação do partido vai além da organização do desfile. A orientação para evitar qualquer menção a “13”, “Lula 2026”, “Lula outra vez” ou slogans semelhantes não é mero detalhe — é um sinal evidente de que o próprio PT reconhece o risco real de que o evento seja interpretado como campanha antecipada.
E esse temor não é exagero. Em um país onde a legislação eleitoral é rigorosa quanto ao uso de eventos públicos e manifestações culturais para promoção política, qualquer sinal de mobilização eleitoral fora do período permitido pode gerar representações por abuso de poder político e propaganda irregular. Um desfile transmitido nacionalmente, com forte presença simbólica do presidente, poderia facilmente se tornar munição jurídica para adversários.
A contradição, porém, salta aos olhos: se a homenagem é apenas cultural e espontânea, por que a necessidade de tanto controle, recomendações e cautela? O excesso de zelo revela que o próprio partido entende a linha tênue entre celebração e promoção política — e sabe que basta um passo em falso para que o espetáculo do samba se transforme em um problema nos tribunais eleitorais.
No fim das contas, o episódio evidencia um paradoxo: ao tentar evitar acusações de campanha antecipada, o PT acaba reforçando a percepção de que o desfile carrega, sim, forte peso político. E quanto maior o esforço para silenciar slogans e símbolos, mais evidente se torna o temor de que a festa possa deixar de ser apenas festa — e virar prova em futuras disputas judiciais.
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília





