Nas últimas semanas, o governo brasileiro anunciou o envio de cerca de 40 toneladas de insumos e medicamentos destinados ao tratamento de hemodiálise para a Venezuela — parte de um total de 100 toneladas que serão enviadas ao país vizinho após a destruição de um centro de distribuição de medicamentos em Caracas. O Ministério da Saúde afirma que esse apoio tem caráter humanitário e de solidariedade regional, e que não compromete o atendimento no Brasil, pois os itens doados já eram excedentes ou supridos por doações de hospitais públicos e filantrópicos.
No plano internacional, a iniciativa se justifica como gesto de cooperação entre países vizinhos e resposta a uma crise emergencial do sistema de saúde venezuelano. Governos frequentemente realizam esse tipo de ação em cenário de catástrofe humanitária — e o Brasil não é exceção. Apoiar pacientes renais que dependem de hemodiálise em um país onde o sistema de saúde está colapsado pode evitar mortes imediatas e representa um posicionamento diplomático de solidariedade.
No entanto, a reação interna ampla no Brasil revela uma tensão legítima entre a política externa humanitária e o cotidiano de milhões de brasileiros que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). A população frequentemente enfrenta escassez de medicamentos básicos e insumos essenciais nas unidades de saúde, reclamações que não são meramente discursivas, mas refletem dificuldades reais no acesso a tratamentos e medicamentos em diversas regiões do país — especialmente para doenças crônicas e tratamentos de longa duração. Essa insuficiência é sentida diretamente pelos usuários do SUS, que muitas vezes precisam recorrer à compra particular de medicamentos que deveriam ser garantidos pelo sistema público.
A crítica central aqui não é sobre o envio em si, mas sobre a prioridade e percepção pública sobre gestão de recursos no Brasil. Quando o governo anuncia que possui estoques “seguros” e que as doações “não afetam” o atendimento no SUS, há quem veja isso como uma mensagem desconectada da experiência cotidiana dos pacientes brasileiros que enfrentam filas, falta de medicamentos no posto de saúde e dificuldades nesse mesmo sistema de saúde que deveria cuidar prioritariamente de sua própria população.
Além disso, é possível questionar se a comunicação pública e a transparência sobre a origem, o tipo e a real disponibilidade desses insumos foram suficientes para evitar a sensação de que o Brasil está “dando o que falta para nós mesmos”. O debate público acaba polarizado: de um lado a solidariedade internacional e cooperação humanitária; do outro, a frustração de brasileiros que percebem o SUS em crise e sentem que o Estado não consegue suprir suas necessidades básicas de saúde.
Esse tipo de crítica aponta para um problema maior de política pública: a necessidade de reforçar e fortalecer o SUS de forma que o Brasil possa, de fato, responder tanto às suas próprias demandas internas quanto a crises humanitárias externas, sem que um atendimento diminua o outro.
Em suma, a decisão de enviar insumos ao exterior pode ter motivação humanitária e diplomática legítima, mas a crítica se concentra na falta de conexão entre essa ação e a realidade enfrentada por muitos brasileiros — uma contradição que merece debate sério, transparente e informado, tanto sobre prioridades de saúde pública quanto sobre a realidade das nossas políticas de suprimentos e serviços no SUS.
Da redação com informações IA





