O governo federal insiste em transformar o 8 de janeiro — uma data que deveria ser tratada com sobriedade institucional e respeito à democracia — em um evento de conveniência política. Em vez de reflexão séria, autocrítica e compromisso real com o fortalecimento das instituições, o que se vê é a tentativa clara de explorar simbolicamente o episódio como ferramenta de narrativa, vitimização seletiva, mobilização ideológica e palanque político.
O esvaziamento político do ato é revelador. A decisão dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, de não participarem do evento expõe um fato incômodo para o Planalto: nem todos estão dispostos a endossar a instrumentalização de uma tragédia institucional para fins de propaganda. A ausência dos chefes do Legislativo não é detalhe — é sinal de desconforto, prudência e, sobretudo, de recado político.
O 8 de janeiro foi grave. Atentou contra prédios, símbolos e a própria ideia de Estado Democrático de Direito. Mas a gravidade do episódio não autoriza seu uso como salvo-conduto para excessos, perseguições seletivas ou discursos que dividem o país entre “democratas do bem” e “inimigos da democracia”, conforme a conveniência do poder de turno. Democracia não se fortalece com encenação, nem com cerimônias carregadas de viés político.
Ao tentar monopolizar o significado do 8 de janeiro, o governo transforma memória em palanque e justiça em discurso. O resultado é o oposto do que se anuncia: em vez de união institucional, cria-se ruído; em vez de pacificação, aprofunda-se a polarização; em vez de respeito às instituições, promove-se o uso político delas.
A recusa de Hugo Motta e Davi Alcolumbre em participar do evento não diminui a importância da democracia — ao contrário, preserva-a. Demonstra que há limites que não devem ser ultrapassados e que nem tudo pode ou deve ser convertido em espetáculo político. O Brasil precisa de instituições fortes, independentes e responsáveis, não de atos simbólicos desenhados para reforçar narrativas oficiais.
O 8 de janeiro exige ser lembrado com seriedade, justiça equilibrada e compromisso com o futuro — não como peça de marketing político. Quando o governo confunde memória com propaganda, quem perde não é a oposição, é a democracia brasileira.
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília





