Mesmo após apelos de Celina Leão para suspender o movimento e abrir negociação, sindicato manteve a paralisação; presença de Leandro Grass e relatos de material partidário ampliaram as suspeitas de uso eleitoral do protesto
Enquanto salas de aula da rede pública do Distrito Federal permaneciam vazias e milhares de estudantes ficavam sem o ensino que deveriam receber, professores participavam de uma mobilização que ganhou contornos políticos explícitos com a presença de Leandro Grass, adversário da governadora Celina Leão na disputa eleitoral.
O episódio levanta uma pergunta incômoda: a prioridade era defender as reivindicações da categoria ou transformar a paralisação em oportunidade de promoção política a poucos dias do segundo turno?
A governadora e candidata à reeleição, Celina Leão, havia feito apelos insistentes para que o movimento fosse suspenso. Ela demonstrou disposição para negociar com os profissionais da educação e avaliou que aquele não era o momento adequado para uma paralisação, sobretudo pela proximidade da votação e pelos prejuízos impostos aos estudantes e às famílias.
Mesmo assim, o Sinpro decidiu manter a mobilização desta quarta-feira (21). A quatro dias do segundo turno, a tentativa de diálogo não foi suficiente para convencer a direção sindical a recuar.
Quando a sala de aula perde espaço para o palanque
A presença de Leandro Grass no ato acrescentou um componente eleitoral a uma mobilização que deveria ter como foco central as condições de trabalho dos professores e a qualidade do ensino público. O candidato aproveitou o espaço para manifestar apoio à categoria e criticar o governo de Celina Leão.
Além disso, segundo relato da jornalista Cida Frausino, do Portal Folha Evangélica, participantes portavam materiais com orientações de voto do PT, e houve manifestações em favor de Grass. Caso esses relatos sejam confirmados, será legítimo questionar até que ponto uma pauta sindical foi misturada à campanha eleitoral.
Não se trata de negar aos professores o direito de reivindicar melhores salários, estrutura adequada e autonomia pedagógica. Esses direitos são legítimos. O que merece crítica é a decisão de manter alunos longe das salas de aula justamente quando havia um apelo público por negociação e quando a disputa política se encontrava em sua reta final.
A educação pública não pode ser tratada como instrumento de disputa partidária. O estudante que perdeu uma aula não escolheu participar do conflito entre sindicato e governo. Tampouco deveria ser o principal prejudicado por decisões tomadas por adultos que têm a responsabilidade de defender o ensino.
Quem responde pelo prejuízo aos estudantes?
Enquanto dirigentes sindicais e candidatos ocupavam o espaço público para defender suas posições, pais e mães precisavam improvisar soluções para cuidar dos filhos. Crianças e adolescentes, por sua vez, acumulavam mais um dia sem a rotina escolar.
A questão é inevitável: quem vai garantir a recuperação do conteúdo perdido? Quem vai responder às famílias que dependem da escola pública para trabalhar e organizar a própria rotina?
O Sinpro aponta problemas na estrutura das escolas, na autonomia pedagógica e nas negociações com o governo. Essas alegações precisam ser debatidas com seriedade. Mas também é necessário cobrar responsabilidade da direção sindical por manter uma paralisação em um momento tão sensível, mesmo diante da disposição anunciada pelo governo para dialogar.
A presença de um candidato de oposição, somada aos relatos de material partidário e pedidos de voto, torna ainda mais necessária a transparência sobre os objetivos e a condução do ato.
No fim, a conta mais pesada não recai sobre os políticos que disputam votos nem necessariamente sobre os dirigentes que organizam manifestações. Ela recai sobre o aluno que ficou sem aula, sobre a família que precisou reorganizar a vida e sobre uma rede pública que já enfrenta desafios para garantir aprendizagem a todos.
Paralisação ou palanque eleitoral? A pergunta precisa ser respondida com fatos, transparência e responsabilidade. Porque defender a educação exige muito mais do que discursos em manifestações: exige compromisso com o direito de cada estudante de estar dentro da sala de aula.
Da redação, com informações Folha Evangélica…




