A decisão da governadora Fátima Bezerra (PT) de instituir o chamado “Auxílio Reintegração”, que garante R$ 500 mensais a jovens que deixam o sistema socioeducativo, acendeu um estopim de revolta no Rio Grande do Norte — especialmente em Natal, onde a população convive diariamente com desemprego, serviços públicos precários e insegurança crescente. Para muitos eleitores, a medida simboliza uma grave inversão de prioridades e um descompasso completo com a realidade social do estado.
A ideia de reinserção social, em tese, é legítima. O problema está na forma e no contexto. Ao optar por transferir recursos públicos diretamente a quem passou pelo sistema socioeducativo, o governo ignora milhares de jovens que nunca cometeram crimes, mas que lutam para estudar, trabalhar e sobreviver sem qualquer apoio efetivo do Estado. Para esses, não há auxílio, bolsa ou política consistente. Para quem infringiu a lei, há dinheiro garantido.
A reação popular não poderia ser diferente. Em uma capital onde faltam vagas em creches, escolas enfrentam problemas estruturais, hospitais padecem com filas e profissionais da segurança reclamam de baixos salários e falta de equipamentos, o governo escolhe criar um benefício que premia o pós-delito, sem apresentar contrapartidas claras, metas de acompanhamento rigorosas ou resultados mensuráveis. A sensação que fica é a de afronta ao contribuinte.
Críticos apontam ainda que o programa passa uma mensagem perigosa: a de que o Estado é mais ágil e generoso com quem errou do que com quem sempre seguiu as regras. Em vez de investir pesado em educação básica de qualidade, qualificação profissional ampla e geração de emprego, o governo opta por uma política paliativa, de curto prazo, com forte viés ideológico e alto potencial de desgaste social.
Em Natal, o descontentamento ecoa nas ruas e nas redes. Trabalhadores informais, mães solo, estudantes sem acesso a bolsas e jovens desempregados se perguntam por que não há R$ 500 para quem nunca esteve em conflito com a lei, mas enfrenta diariamente a exclusão econômica. A resposta do governo, até aqui, tem sido insuficiente e distante da realidade vivida pela maioria.
Ao transformar uma pauta sensível em bandeira política, o governo Fátima Bezerra corre o risco de romper ainda mais o vínculo com a população, alimentando a percepção de que governa para nichos específicos, enquanto o conjunto da sociedade paga a conta. Política pública séria exige equilíbrio, prioridade e justiça. O “Auxílio Reintegração”, do jeito que foi apresentado e implementado, falha nos três quesitos.
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília





