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“Consultorias da Vida”: A explicação que ninguém ensinou, mas que pagava as contas na CPMI do INSS

A oitiva da empresária Ingrid Pikinskeni Morais Santos na CPMI do INSS entrou para o folclore político brasileiro com uma frase que parece ter saído de um roteiro de humor involuntário. Ao afirmar que o marido, Cícero Marcelino de Souza Santos, “não tem formação superior” e que imaginava que ele ganhava dinheiro com “Consultorias da Vida”, a depoente produziu uma dessas pérolas que misturam ingenuidade estratégica e ironia involuntária.

“Consultorias da vida” — a expressão é quase poética. Fica a dúvida: seriam palestras motivacionais na mesa do bar? Orientações filosóficas no grupo da família? Conselhos existenciais remunerados por PIX? Num país em que até coach de respiração vira especialista em finanças, talvez estejamos diante de um novo nicho de mercado: a pós-graduação invisível em prosperidade espontânea.

A declaração, no entanto, levanta questões menos cômicas e mais preocupantes. Se o próprio núcleo familiar desconhece a origem concreta dos rendimentos, o problema deixa de ser anedótico e passa a ser institucional. Afinal, a CPMI não foi criada para discutir abstrações metafísicas sobre “sabedoria popular”, mas para apurar responsabilidades, fluxos financeiros e possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos.

É curioso como, em casos assim, o dinheiro ganha vida própria: surge, multiplica-se e circula como se fosse obra do destino. Não é fruto de contratos, nem de prestação formal de serviços, nem de atividade empresarial claramente identificada. É simplesmente resultado de “consultorias da vida”. Um conceito tão elástico que cabe qualquer coisa — inclusive a ausência de explicação.

O episódio também revela uma velha estratégia de defesa pública: a combinação de desinformação seletiva com aparência de simplicidade. Ao destacar que o marido “não tem formação superior”, constrói-se uma imagem de alguém distante de estruturas técnicas complexas, quase um autodidata do cotidiano. Mas a ausência de diploma não é atestado de inocência — assim como a presença dele não é garantia de probidade.

No fim das contas, o que a sociedade espera da CPMI é menos lirismo e mais objetividade. A vida pode até ensinar muito, mas não substitui documentos, contratos, notas fiscais e comprovações bancárias. Se houver explicações sólidas, que sejam apresentadas. Se não houver, a ironia da frase continuará ecoando como símbolo de um país onde, aparentemente, até a prosperidade pode ser atribuída aos mistérios insondáveis das “consultorias da vida”.

**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília

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