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O soldado de Janones e o exorcismo digital

Arnaldo ajustou os óculos e encarou o prontuário. À sua frente, Lineu sentava-se na ponta da cadeira com o olhar vítreo de quem não dormia desde o nascimento de Cristo. Suas pálpebras tremiam em um código Morse involuntário, e os polegares faziam movimentos frenéticos de rolagem de tela no vazio.

“Doutor, não estou me sentindo muito bem…”

O médico levantou o olhar do prontuário para o paciente e conteve um suspiro. Lineu vestia uma camiseta vermelha surrada, recheada de adesivos eleitorais. Já imaginava do que se tratava.

“O que está sentindo?”

Lineu se inclinou para a frente, os olhos arregalados de paranoia.

“Não sei direito, está difícil de pensar… Acho que começou depois do primeiro turno. Ninguém esperava aquilo, doutor! Precisava fazer alguma coisa. Alistei-me no exército do Janones. No começo era só um post aqui, um like acolá. Mas a coisa meio que saiu do controle. Vivo de prontidão. Se o meu despertador toca de manhã, mal acordo já estou dando repostando com comentário. Talvez seja só cansaço, não sei. Minha mulher que me obrigou a vir, na verdade…”

Arnaldo afastou o prontuário e anotou algo em outro papel.

“E o que mais?”

“Ontem ela pediu para comprar macarrão pro almoço. Olhei com ódio, de braços cruzados, e disse: ‘Macarrão? Justo agora que a extrema direita está avançando com mais um vídeo daquele piá de bosta? Você quer que eu me desmobilize por causa de carboidrato?’ Enfim, acho que exagerei, não sei… Pior que passei a tarde inteira me segurando pra não assistir ao tal vídeo, não comentar, não responder… Assim a gente desestabiliza o algoritmo deles, sabe? Fiquei tão cansado, doutor…”

O paciente puxou o ar, peito arquejando.

“As pálpebras de Lineu tremiam em um código Morse involuntário, e os polegares faziam movimentos frenéticos de rolagem de tela no vazio”

“À noite foi pior. Meu filho de 7 anos me mostrou um desenho da escola. Era uma casinha amarela com um sol brilhante. Entrei em pânico. Peguei o papel e gritei: ‘Quem te pagou para fazer propaganda?’ O menino chorou. Confisquei o lápis de cor amarelo e aí complicou… Minha mulher me obrigou a dormir na sala.”

O médico parou de anotar, tirou os óculos e olhou com misericórdia para Lineu:

“Tenho atendido muita gente com Transtorno de Ansiedade de Urna, Lineu, mas este não é seu caso. Seu problema não é físico, é espiritual.”

“O quê?! Um demônio me pegou por causa da política? Eu sabia que esse Jair era coisa do capiroto!”

“Não, Lineu…” – Arnaldo respirou fundo, recostando-se na cadeira – “O diabo não precisa possuir as suas cordas vocais para fazê-lo falar bobagem, só precisa cercar a sua mente. Você não se alistou em exército nenhum, apenas transformou sua mente em um puxadinho do inferno. O senhor não está ansioso, está sitiado.”

“Jesus, Maria e José! E agora, doutor?”

“Recomendo um exorcismo digital. Sete dias de jejum absoluto de redes sociais. Mas sei que isso é difícil, então tente, pelo menos, remediar o estrago. Se o Janones postar que tem um vídeo bombástico que vai mudar os rumos da história humana, pare tudo e vá rezar um terço. Se alguém usar os termos como ‘urgente’ acompanhado de emoji de giroflex, jogue o celular no congelador e vá assistir a um documentário sobre pinguins se acasalando, sei lá, algo assim.”

Lineu pegou o papel do receituário como quem segura um tratado de paz assinado sob protesto.

“E se a narrativa deles vencer porque eu estava assistindo a pinguins transando, doutor?”

“O mundo vai continuar na segunda-feira, Lineu, com eles ou vocês vencendo.”

Lineu se levantou, guardou a receita e caminhou até a porta. Antes de sair, parou, semicerrou os olhos e encarou o médico:

“Doutor… esse jaleco branco… O senhor quase me enganou, fazendo parecer que o futuro é uma página em branco. Mas eu sei que é uma mensagem subliminar de neutralidade irresponsável. O senhor é deles!”

Lineu saiu furioso, discursando na sala de espera sobre o fim do mundo se “eles” vencerem. Arnaldo levantou, fechou a porta do consultório, voltou à mesa, suspirou e balançou a cabeça. Retomou o prontuário da Secretaria de Saúde e anotou o diagnóstico: virose.

Gazeta do Povo

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