Cariocas, mulheres e vítimas da violência. Veja só o que Lula pensa de você
*Por Rogério Pires
Faltavam poucos minutos para o fim do primeiro bloco quando o presidente da República resolveu explicar ao Brasil o que pensa de quem nasceu no Rio de Janeiro. Diante das câmeras da Band, no primeiro encontro com Flávio Bolsonaro em toda a campanha, Lula chamou o adversário de “malandro carioca”.
Não foi escorregão de botequim. Foi escolha de palavra, em horário nobre, a uma semana do segundo turno. Eu estudei na Escola Técnica Visconde de Mauá, em Marechal Hermes. Saí de lá técnico em eletrônica e passei mais de vinte anos no serviço público ao lado de gente que pega trem lotado antes de o sol nascer e só volta para casa à noite. Professores, enfermeiras, vigilantes, estudantes que conciliam emprego e curso noturno. Conheço o carioca de perto. Malandro não é a palavra que me vem à cabeça.
Para o presidente, porém, o lugar de nascimento parece bastar como acusação. Ele colou a origem a um defeito de caráter, como quem repete piada velha em mesa de bar. Flávio abriu o bloco seguinte prestando solidariedade aos moradores do Rio. Fez o que qualquer representante do estado deveria fazer.
“Sua mulher da economia”
A segunda cena foi ainda mais reveladora. Ao falar de Dani Marques, coordenadora do programa econômico da campanha adversária, Lula não disse o nome dela. Chamou-a de “sua mulher da economia”.
Pense no peso dessa expressão. Daniella Marques nasceu em Barra Mansa, é economista formada pela PUC-Rio e presidiu a Caixa Econômica Federal, um dos maiores bancos públicos do país. Foi demitida pelo próprio Lula em janeiro de 2023. Ele conhece bem a trajetória dela. Escolheu apagar o nome e reduzi-la a um pronome possessivo, como se ela pertencesse a alguém.
Flávio chamou a fala de machista e definiu Dani como uma profissional capacitada e gabaritada. E não é a primeira vez. No fim de setembro, a própria Dani classificou como abjeta outra declaração do presidente, aquela em que ele disse que as mulheres se acostumam a “tomar toque” desde pequenas.
Quantas vezes uma mulher competente precisa ouvir isso até alguém dizer basta?
Não é deslize. É padrão
Quem acha que a noite de domingo foi um acidente não acompanhou os últimos 26 anos.
Em 2000, enquanto ajeitava a gravata do candidato do PT à prefeitura de Pelotas antes de uma gravação, Lula perguntou se aquela era uma “cidade-polo, exportadora de veados”. A piada virou capítulo obrigatório no catálogo de falas preconceituosas da política brasileira.
Em 2016, um grampo da Lava Jato registrou o então ex-presidente cobrando do aliado Paulo Vannuchi uma reação das deputadas do partido: “Cadê as mulheres de grelo duro do nosso partido?”
Em julho de 2023, em Cabo Verde, disse ter profunda gratidão à África por tudo o que foi produzido em 350 anos de escravidão no Brasil. Até a própria ministra da Cultura na época, Margareth Menezes, condenou e admitiu que a frase foi “mal colocada”.
Em fevereiro de 2024, numa fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, havia uma jovem negra no palco. Chamava-se Luiza Eduarda Leôncio, tinha 20 anos, estudava engenharia na Universidade Federal do ABC e acabara de ser eleita a melhor aprendiz da montadora, com direito a representar o Brasil num evento na Alemanha. Lula olhou para ela e imaginou que fosse cantora. Depois explicou ao público por que pensou assim: “uma afrodescendente assim gosta de um batuque, de um tambor”.
Luiza estava ali pelo mérito. O presidente só enxergou a cor.
Em julho de 2024, no Palácio do Planalto, comentou uma pesquisa que mostra o aumento da violência contra a mulher depois dos jogos de futebol. E soltou: “Se o cara é corintiano, tudo bem, como eu”. Quem respondeu à altura foi a ministra das Mulheres do governo dele, Cida Gonçalves, ao dizer que não aceita piadinha nem de presidente da República.
Em agosto de 2025, em Sorocaba, ao lançar unidades do Brasil Sorridente, Lula contou que mandou arrancar de uma revista oficial a foto de um senhor negro que sorria. A intenção declarada era condenar o preconceito da imagem. A frase que ele escolheu para isso foi “um cara sem dente e ainda negro”. Rendeu notícia-crime na PGR, protocolada pelo deputado Helio Lopes.
Seis episódios. Gays, mulheres, negros, vítimas da violência doméstica. Em todos, a mesma defesa: brincadeira, frase tirada de contexto, má vontade de quem ouviu.
Cem por cento
E então veio o momento que vai ficar.
Pouco antes, Flávio havia citado casos de pessoas assassinadas por condenados que estavam fora da cadeia. Lula respondeu defendendo os bandidos condenados, sem a menor cerimônia ou qualquer sentimento ou ainda, preocupação com as vítimas.
Aí veio a pergunta que ele não queria ouvir. Por que quase três em cada quatro presos votaram nele no primeiro turno? O número é do TSE: 72,6% dos votos válidos nas seções dos presídios.
Lula não explicou. Dobrou a aposta.
“Eu quero que vote cem por cento.”
Em tom de deboche. E parte da plateia riu junto. Flávio, não. “Você foi eleito por aclamação nos presídios, você representa eles”, devolveu.
Na mesma noite em que defendeu quem cumpre pena, o presidente transformou o voto da cadeia em piada de palco. Duvido que as famílias das vítimas citadas minutos antes tenham achado graça.
O que o marketing não controla
Ao chegar à Band, Lula disse esperar que o debate fosse uma aula de civilidade. Saiu de lá tendo chamado o adversário de miliciano, de malandro carioca e de mentiroso contumaz. O clima esquentou tanto que, nas considerações finais, o debate precisou ser interrompido em meio aos gritos.
Propaganda eleitoral tem edição, trilha sonora e luz bonita. Debate ao vivo não tem. Por isso ele importa tanto. É ali que o candidato aparece sem filtro. E o Brasil viu, numa só noite, o que o presidente pensa do Rio de Janeiro, das mulheres que discordam dele e das vítimas da violência.
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A disputa segue aberta e se decide no próximo domingo, 25 de outubro.
Até lá, cada carioca que já foi tratado como suspeito por causa do CEP, cada mulher que já foi apresentada como “a mulher de alguém” numa reunião, cada jovem negro que já teve o mérito confundido com estereótipo e cada família que ainda espera justiça terá uma semana para pensar no que ouviu.
Eu já pensei. E não vou esquecer.
*Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




