Carlos Augusto Montenegro questiona a capacidade dos institutos de captar o eleitorado, destaca o desgaste do governo Lula e avalia que a força da centro-direita pode pesar no resultado das eleições de 2026
O cenário eleitoral brasileiro pode ser mais favorável à direita do que indicam as pesquisas de intenção de voto. Essa é a avaliação de Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente do Ibope, que, após mais de quatro décadas acompanhando o comportamento do eleitorado, acredita que os levantamentos atuais podem não estar retratando integralmente a realidade das urnas.
Em entrevista ao Brazil Journal, publicada na sexta-feira (16), Montenegro afirmou que vê possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro apresentar uma vantagem maior sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que sugerem os levantamentos mais recentes. A avaliação, porém, representa a interpretação pessoal do ex-dirigente, e não uma conclusão comprovada sobre o resultado da eleição.
Dificuldade para ouvir o eleitorado
Um dos principais pontos levantados por Montenegro é a dificuldade crescente de realizar pesquisas eleitorais. Segundo ele, a polarização política tornou as entrevistas presenciais mais complicadas, com eleitores que se recusam a responder ou reagem de forma hostil à abordagem dos pesquisadores.
O ex-presidente do Ibope também chama a atenção para as limitações das pesquisas telefônicas e para a dificuldade de acesso a determinadas comunidades, especialmente em regiões marcadas pela violência e pelo controle territorial de grupos criminosos.
Na avaliação dele, esses obstáculos podem deixar parcelas do eleitorado fora dos levantamentos e contribuir para diferenças entre as estimativas divulgadas pelos institutos e os resultados efetivos das urnas.
Montenegro cita os erros registrados nas projeções do primeiro turno de 2026 para defender uma leitura mais cautelosa dos números atuais. Na sua interpretação, uma disputa apontada como próxima de 51% a 49% poderia esconder uma diferença maior. Essa hipótese, entretanto, não altera os resultados oficiais nem comprova que os institutos estejam subestimando um dos candidatos.
Direita em crescimento e desgaste do governo
Além das questões metodológicas, Montenegro identifica uma mudança no comportamento político dos brasileiros. Para ele, os resultados eleitorais recentes indicam fortalecimento da centro-direita e maior dificuldade dos partidos tradicionais para manter sua influência.
O ex-dirigente avalia que o desempenho da direita não depende apenas da mobilização de apoiadores nas ruas, mas também de um eleitorado menos exposto publicamente, que manifesta suas preferências principalmente nas urnas.
Nesse contexto, ele considera que o desgaste do governo Lula pode favorecer Flávio Bolsonaro. Entre os fatores que, na sua análise, pesam contra o presidente está o custo de vida, especialmente a dificuldade enfrentada pelas famílias para manter o poder de compra.
Mesmo quando os indicadores oficiais apontam desaceleração da inflação, a percepção cotidiana de que os alimentos e outros produtos continuam caros pode influenciar a avaliação do governo. Para Montenegro, esse sentimento ajuda a alimentar o desejo de mudança entre parte dos eleitores.
Transferência de votos será decisiva
Outro aspecto destacado pelo ex-presidente do Ibope é o destino dos votos recebidos pelos candidatos derrotados no primeiro turno. Segundo ele, os aproximadamente nove milhões de votos atribuídos a outros candidatos de centro-direita representam um contingente relevante para a disputa.
Montenegro considera que a movimentação desse eleitorado precisa ser observada com atenção na análise do segundo turno. Ele ressalta, contudo, que não é possível presumir que todos esses eleitores votarão em Flávio Bolsonaro.
O ex-dirigente também aponta a rejeição ao governo e o fortalecimento da direita como fatores que podem influenciar o comportamento do eleitor. Na sua leitura, a polarização entre os campos políticos é tão intensa que uma parcela expressiva dos votantes dificilmente migraria diretamente de um candidato para o adversário, mesmo diante de controvérsias durante a campanha.
Manifestações não representam todo o eleitorado
Montenegro relativiza o peso das grandes manifestações políticas como indicador de intenção de voto. Para ele, atos públicos costumam reunir pessoas que já possuem posições consolidadas e, por isso, não necessariamente revelam o comportamento da maioria silenciosa.
A avaliação reforça a importância de observar não apenas a mobilização nas ruas, mas também os eleitores que não participam de atos políticos e que podem definir uma eleição apertada.
O ex-presidente do Ibope ainda defende que os métodos de pesquisa precisam acompanhar as transformações sociais e tecnológicas. A forma como as pessoas consomem informação, utilizam telefones e se relacionam com a política mudou significativamente, exigindo novas estratégias para medir a opinião pública.
Disputa de 2026 e cenário para o futuro
Apesar de considerar Flávio Bolsonaro em posição favorável, Montenegro reconhece que eleições envolvem variáveis e que os números não permitem antecipar com certeza o resultado final.
Ele também projeta a continuidade da força da centro-direita nas próximas disputas, embora avalie que o bolsonarismo, enquanto movimento ligado diretamente à família Bolsonaro, possa passar por transformações. Nesse cenário, considera que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, poderá ter papel relevante na eleição presidencial de 2030.
A entrevista apresenta, assim, uma leitura que vai além da disputa imediata entre Lula e Flávio Bolsonaro. Para Montenegro, o resultado eleitoral também refletirá mudanças na relação dos brasileiros com os partidos, a avaliação dos governos e a capacidade das pesquisas de captar um eleitorado cada vez mais difícil de medir.
Fonte: Brazil Journal, entrevista publicada em 16 de outubro de 2026. Texto reescrito e resumido a partir das declarações de Carlos Augusto Montenegro. Foto produção Brazil Journal




