A nove dias da eleição, candidato petista enfrenta uma distância expressiva nas pesquisas e sinais de desgaste político. Mudança visual levanta uma pergunta incômoda: o problema está na cor da campanha ou na falta de mobilização?
Por mais que uma campanha tente mudar de aparência, nem sempre consegue mudar a realidade. É o que parece acontecer com Leandro Grass (PT) na reta final da disputa pelo Governo do Distrito Federal. A nove dias do segundo turno, o candidato petista enfrenta um cenário cada vez mais difícil, com uma distância considerável em relação à governadora Celina Leão (PP) nas pesquisas de intenção de voto e sinais de que o entusiasmo de parte de sua própria militância não corresponde à urgência do momento.
Na política, a cor de uma campanha pode até mudar. O difícil é mudar o humor das ruas.
A substituição do tradicional vermelho do PT pelo laranja associado ao PSB chamou a atenção e alimentou questionamentos sobre a estratégia eleitoral de Grass. A impressão que fica é a de uma campanha tentando encontrar uma nova identidade justamente quando deveria estar consolidando sua presença, mobilizando apoiadores e ampliando sua capacidade de conquistar votos.
A pergunta é inevitável: trocar o vermelho pelo laranja seria apenas uma decisão de marketing ou também um sinal de desconforto com a própria identidade política?
Não se trata de afirmar que uma mudança visual, por si só, determina o resultado de uma eleição. Mas, em uma disputa tão curta e decisiva, cada gesto comunica alguma coisa. E, quando a mudança de cores vem acompanhada de dificuldades para encurtar a distância nas pesquisas, a estratégia passa a ser observada com ainda mais atenção.
O apoio de Lula não garante o entusiasmo do PT
Grass chegou à disputa com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a estrutura política de um dos maiores partidos do país. Ainda assim, ter o respaldo da direção nacional não significa, automaticamente, conquistar a confiança e o empenho de todos os militantes.
É justamente aí que parece estar uma das fragilidades da campanha.
Nos bastidores, a percepção de menor entusiasmo de parte da militância petista levanta dúvidas sobre a capacidade de mobilização do candidato. É importante reconhecer que o empenho de apoiadores não pode ser medido apenas por fotografias, bandeiras ou manifestações públicas. Ainda assim, em uma eleição decidida no contato direto com o eleitor, a energia da militância pode fazer diferença.
Minha avaliação é que Grass precisava chegar a esta reta final com uma campanha mais coesa, uma identidade política mais definida e uma militância convencida de que a vitória era possível. Em vez disso, a impressão é de que o candidato tenta reorganizar a própria estratégia quando o relógio eleitoral já está perto de zerar.
E eleição não costuma esperar que uma campanha se encontre.
Os números pesam — e muito: Celina tem 55%, contra 37% de Grass, e abre vantagem de 20 pontos nos votos válidos
As pesquisas mais recentes ajudam a dimensionar o tamanho do desafio de Leandro Grass (PT) na reta final do segundo turno. Levantamento do Datafolha, divulgado em 13 de outubro, apontou Celina Leão (PP) com 55% das intenções de voto, contra 37% de Grass. Brancos e nulos somavam 5%, enquanto 3% dos entrevistados estavam indecisos.
Já a pesquisa RealTime Big Data, divulgada em 14 de outubro, mostrou Celina com 60% dos votos válidos, ante 40% de Grass — uma diferença de 20 pontos percentuais. Embora os institutos utilizem metodologias distintas, ambos os levantamentos indicaram uma vantagem expressiva da governadora na disputa.
Pesquisa eleitoral não é resultado de urna, e nenhuma disputa deve ser considerada encerrada antes da votação. Entretanto, ignorar a dimensão dessa diferença seria fechar os olhos para a realidade. Com Celina à frente nos dois levantamentos, Grass enfrenta uma corrida contra o tempo para tentar reverter o cenário.
Para mudar esse quadro, o candidato petista precisaria ampliar sua capacidade de diálogo para além do eleitorado que já está convencido, conquistar indecisos e atrair uma parcela significativa dos votos dos candidatos eliminados no primeiro turno. Tudo isso exige mais do que discursos de confronto: exige estratégia, unidade e capacidade de mobilização.
O problema é que, a poucos dias da eleição, o tempo para corrigir os rumos está cada vez menor. Com uma diferença tão expressiva nas pesquisas, a pergunta já não é apenas como Grass pretende virar o jogo, mas se sua campanha ainda conseguirá reunir força política e mobilização suficientes para tornar essa virada possível.
Quando a militância esfria, o sinal de alerta acende
Uma candidatura competitiva precisa transmitir confiança, especialmente nos momentos difíceis. A militância é parte importante desse processo porque ajuda a levar mensagens às ruas, conversar com eleitores e sustentar a presença da campanha nos territórios.
Quando surgem sinais de desmobilização, a candidatura corre o risco de perder não apenas força operacional, mas também a percepção de competitividade. Afinal, se nem todos os apoiadores demonstram o mesmo entusiasmo, o eleitor pode começar a questionar se ainda existe fôlego para uma virada.
Não afirmo que o PT tenha abandonado oficialmente Grass, nem que todos os seus militantes estejam desanimados. O que merece atenção é a aparente dificuldade de transformar o apoio partidário em uma mobilização que corresponda ao tamanho do desafio eleitoral.
A troca de cores, nesse contexto, acaba se tornando um símbolo de uma questão maior: a dificuldade de fazer a campanha avançar no momento em que mais precisa crescer.
Uma reta final que exige mais do que maquiagem política
Leandro Grass ainda tem o direito de disputar cada voto e apresentar suas propostas ao eleitor do Distrito Federal. Mas precisa enfrentar os fatos sem ilusões. O segundo turno não se vence apenas com o peso de um padrinho político, com a força de uma legenda nacional ou com mudanças na identidade visual.
É preciso convencer o eleitor de que existe um projeto capaz de superar o adversário. É preciso mobilizar quem já apoia a candidatura e conquistar quem ainda está indeciso. E, sobretudo, é preciso transmitir a sensação de que a campanha tem rumo, unidade e força para disputar a vitória.
Na minha avaliação, a maior dificuldade de Grass neste momento não é escolher entre o vermelho e o laranja. É demonstrar que sua candidatura ainda consegue despertar o entusiasmo necessário para uma virada.
A política tem dessas ironias: às vezes, muda-se a cor para tentar renovar a imagem, mas o eleitor continua enxergando os mesmos problemas.
Se os números se mantiverem e a mobilização não reagir, a campanha de Leandro Grass poderá chegar ao dia da votação tendo perdido não apenas espaço nas pesquisas, mas também parte da energia política indispensável a qualquer tentativa de virada.
No fim das contas, não é a cor da bandeira que decide uma eleição. É a quantidade de eleitores que se convencem a votar por aquilo que ela representa.
Da redação por Jorge Poliglota e informações RadarDF


