Drenagem, recuperação das passagens subterrâneas, segurança, acessibilidade e requalificação urbana formam carteira de intervenções que atravessa governos e ainda tem etapas previstas para o Plano Piloto
Para quem mora na Asa Sul ou na Asa Norte, a eleição para o Governo do Distrito Federal não envolve apenas grandes discursos políticos. Há uma discussão muito mais próxima da porta de casa: o que acontecerá com as obras, projetos e intervenções que já estão em execução ou possuem novas etapas programadas para o Plano Piloto?
Desde que Celina Leão assumiu definitivamente o Governo do Distrito Federal, no fim de março, após a desincompatibilização de Ibaneis Rocha, sua administração passou a conduzir uma carteira que mistura projetos iniciados anteriormente com novas etapas, decisões administrativas e investimentos que ainda precisam ser executados.
Essa distinção é importante.
Nem tudo nasceu no governo Celina. Mas é sua administração que hoje responde pela continuidade, execução e planejamento das próximas etapas de diferentes projetos.
E, na Asa Sul e na Asa Norte, alguns deles mexem diretamente com problemas históricos da região.
Asa Norte: depois de R$ 180 milhões, drenagem ainda tem novas etapas
Talvez o maior exemplo seja o Drenar DF.
A primeira etapa representou investimento de aproximadamente R$ 180 milhões e implantou cerca de 7,7 quilômetros de galerias subterrâneas para enfrentar um velho problema da Asa Norte: os alagamentos provocados pelas chuvas.
O sistema atravessa áreas próximas às quadras 902, 702, 302, 102, 202 e 402 Norte, passando pela W3, Eixão, L2 e chegando à L4 Norte.
Foram implantadas ainda 291 novas bocas de lobo, destinadas à captação das águas pluviais. Mas o trabalho não termina aí.
A primeira fase cobre principalmente o início da Asa Norte. A documentação divulgada pelo GDF prevê uma segunda etapa abrangendo das quadras finais 4 e 5 até as finais 14.
O projeto estava em análise na Novacap e dependia da obtenção dos recursos necessários.
Há ainda uma terceira frente em estudo para alcançar as quadras finais 15 e 16.
Portanto, para uma parcela considerável da Asa Norte, o Drenar não é simplesmente uma obra do passado. É também uma discussão sobre aquilo que ainda falta executar.
Do subterrâneo para a superfície
O projeto prevê ainda uma transformação urbana que pouca gente associa às enormes galerias instaladas sob Brasília.
Está projetado o Parque Urbano Internacional da Paz, incorporando a área da bacia de detenção do Drenar.
Segundo o planejamento divulgado pelo governo, serão cerca de 5 mil m² de área livre, com praça, esculturas, arborização e uma ciclovia de aproximadamente 1,1 quilômetro. O paisagismo prevê 249 árvores e arbustos, incluindo espécies de sombreamento e árvores frutíferas. Ou seja, uma obra originalmente concebida para resolver alagamentos poderá também deixar um novo espaço público para moradores da região.
As passagens subterrâneas começam a mudar de cara
Se o Drenar representa uma das maiores intervenções de infraestrutura da Asa Norte, existe outro projeto que interessa simultaneamente às duas Asas.
São as tradicionais — e durante muito tempo problemáticas — passagens subterrâneas do Plano Piloto.
O GDF colocou em execução um programa para recuperar 16 travessias subterrâneas da Asa Sul e Asa Norte, com investimento global anunciado de aproximadamente R$ 4 milhões.
A intervenção não consiste apenas em passar tinta nas paredes.
O programa envolve recuperação de pisos, substituição de grelhas, limpeza, manutenção da iluminação e melhorias relacionadas à acessibilidade e conservação.
A passagem da 102 Sul já foi contemplada. A da 103 Norte também foi entregue reformada, enquanto intervenções nas passagens da 104 e 106 Sul avançaram dentro do cronograma. E o planejamento é chegar às demais.
O próximo passo é segurança
Existe ainda uma segunda questão que talvez seja tão importante quanto reformar essas estruturas: impedir que voltem rapidamente à situação anterior.
Segundo a Novacap e a Secretaria de Segurança Pública, está em andamento o processo para instalação de câmeras de monitoramento e implantação de rondas regulares nos acessos às passagens.
A proposta anunciada é estabelecer vigilância permanente e acelerar a reposição de estruturas eventualmente vandalizadas.
Isso toca diretamente em uma reclamação antiga de quem utiliza essas travessias a pé. Não basta existir passagem. Ela precisa estar iluminada, conservada, acessível e oferecer condições adequadas de utilização.
Asa Sul também tem intervenções urbanísticas no radar
Outra frente alcança o Setor de Clubes Esportivos Sul.
Já durante a administração de Celina, em maio, foi aprovado projeto de requalificação para o Trecho 2 do setor, abrangendo uma área pública de 84.371,73 m².
O planejamento prevê reorganização do sistema viário, estacionamentos, novas calçadas, travessias mais seguras, percursos acessíveis e bicicletários.
A proposta procura melhorar justamente uma área que recebe grande circulação de veículos e pedestres em razão dos clubes, eventos culturais e apresentações realizados na região.
Continuidade não significa cheque em branco
É justamente aqui que a discussão eleitoral pode ficar mais interessante. Defender continuidade administrativa não significa afirmar que tudo esteja resolvido. Não está.
Moradores da Asa Sul e da Asa Norte continuam convivendo com problemas de conservação urbana, segurança, calçadas, mobilidade, comércio local, estacionamento e manutenção de espaços públicos.
Da mesma maneira, projetos anunciados não podem ser tratados como obras entregues.
Projeto é projeto. Obra iniciada é obra iniciada. Entrega é entrega.
O eleitor tem direito de distinguir uma coisa da outra, mas também precisa conhecer o que já está contratado, o que se encontra em execução e quais projetos dependem das próximas decisões do governo. Isso o governo Celina têm sido transparente perante à população desses, digamos, bairros.
Celina herdou obras — e agora responde pelo que acontecerá com elas
Esse talvez seja o ponto mais relevante. Celina não começou o atual ciclo administrativo do zero. Durante anos ela foi vice-governadora de Ibaneis Rocha e, ao assumir o comando do Buriti, recebeu uma máquina administrativa com grandes projetos em diferentes estágios. O Drenar DF é exemplo claro disso.
Mas seria igualmente incompleto ignorar que as próximas fases previstas para a Asa Norte terão de ser conduzidas, financiadas e executadas pela administração que estiver à frente do Distrito Federal.
O mesmo raciocínio vale para as passagens subterrâneas.
As intervenções começaram anteriormente, mas o cronograma prevê alcançar todas as 16 estruturas. É justamente aí que continuidade administrativa deixa de ser apenas slogan eleitoral e passa a ser uma questão concreta de gestão.
Para as duas Asas, a pergunta pode ser bem simples
Asa Sul e Asa Norte são áreas consolidadas de Brasília. Por isso, suas necessidades são diferentes das de regiões que ainda aguardam infraestrutura básica.
Aqui, muitas vezes o desafio é recuperar, modernizar e preservar aquilo que Brasília já possui.
Drenagem capaz de suportar chuvas intensas, passagens subterrâneas utilizáveis, iluminação, segurança, calçadas acessíveis, áreas públicas conservadas, ciclovias, paisagismo e mobilidade.
São assuntos menos espetaculares do que uma grande obra inaugurada com faixa e palanque, mas interferem todos os dias na qualidade de vida.
E é por isso que o segundo turno também está aí para que Celina Leão explique e mostre claramente o que pretendem e o que já está fazendo com cada um desses projetos. Tem gente que sequer sabe e conhece os projetos.
Celina tem a responsabilidade adicional de mostrar o que sua administração efetivamente executou desde março, quais obras serão concluídas e de onde sairão os recursos das etapas ainda pendentes.
Grass, como candidato de oposição, precisa dizer quais projetos manteria, quais modificaria e quais eventualmente substituiria. Mas parece que o objetivo dele não seja esse e tão somente desqualificar o que o atual governo já tem em prática.
No fim das contas, para o morador da Asa Sul e da Asa Norte, a questão pode ser muito menos ideológica do que parece.
Há obras realizadas. Há obras em andamento. Há projetos esperando recursos. E há novas etapas ainda no papel. Tudo dentro de um cronograma.
Leandro Grass ficou à frente de Celina Leão em duas das 19 zonas eleitorais de Brasília. Na zona da Asa Norte, ele marcou 46,8% dos votos válidos contra 36,8% dela. A outra zona em que Grass liderou foi a da Asa Sul, onde obteve 42,8% dos votos válidos, enquanto Celina Leão registrou 39,2%.
Celina Leão liderou nas outras 17 zonas.
Será que todo mundo está errado e só as “Asas” estão certas?
Mas no dia da escolha, conhecer essa diferença talvez seja tão importante quanto qualquer discurso de campanha. E moradores da Asa Sul e Norte são sabiamente esclarecidos para separar “O joio do trigo”.
Da redação por Jorge Poliglota…




