Gilmar Mendes encerra caso envolvendo Alfredo Gaspar, vice de Flávio Bolsonaro, enquanto vem a público decisão de Moraes que arquivou investigação contra Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ed Raposo
Em Brasília, há dias em que uma notícia já seria suficiente para movimentar o mundo político.
Nesta terça-feira (6), vieram duas.
E ambas carregam a mesma palavra: arquivamento.
Em pleno segundo turno da eleição presidencial, o Supremo Tribunal Federal apareceu no centro de dois episódios envolvendo personagens diretamente associados à disputa política dos últimos anos.
No primeiro, o ministro Gilmar Mendes determinou o arquivamento do pedido de investigação envolvendo Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.
No segundo, veio a público que Alexandre de Moraes arquivou investigação envolvendo Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ed Raposo.
Coincidência de calendário?
Juridicamente, cada processo tem sua história, suas provas e suas razões para terminar. Politicamente, entretanto, é impossível ignorar o momento em que as decisões chegam ao conhecimento da população.
Acusação gravíssima contra Gaspar termina sem abertura de inquérito
O caso envolvendo Alfredo Gaspar era particularmente delicado.
A acusação era de suposto estupro de vulnerável e havia sido levada à Polícia Federal pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS).
Os parlamentares sustentavam que Gaspar teria abusado sexualmente de uma adolescente de 13 anos, anos atrás, e que a relação teria resultado no nascimento de uma criança. Gaspar sempre negou.
A Polícia Federal pediu ao STF, em abril, autorização para abertura de inquérito. Antes de decidir, Gilmar Mendes encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República.
A PGR pediu diligências adicionais.
Vieram então análises de capturas de tela, arquivos de áudio, dados telefônicos, informações eletrônicas e depoimentos.
E, depois de todo esse caminho, a conclusão foi outra.
Segundo Gilmar Mendes, o material reunido não apresentou base indiciária suficiente para justificar a abertura do inquérito.
Ou seja: uma coisa precisa ficar bastante clara.
Gaspar não foi condenado, não virou réu e sequer chegou a ser formalmente investigado por meio do inquérito que havia sido solicitado.
O procedimento preliminar terminou arquivado.
Uma acusação que entrou com força na campanha
O peso político do episódio não pode ser ignorado.
A acusação contra Gaspar voltou aos holofotes quando ele foi escolhido para ocupar a vaga de vice na chapa de Flávio Bolsonaro.
Naquele momento, a existência das diligências preliminares passou a integrar o noticiário eleitoral e naturalmente se transformou em munição para os adversários.
Gaspar reagiu desde o início afirmando que se tratava de perseguição política relacionada à sua atuação na CPMI do INSS.
Essa é a versão do candidato.
O que agora existe como fato jurídico é a decisão do STF: o pedido de investigação foi arquivado por insuficiência de elementos para abertura do inquérito.
Após a decisão, Gaspar voltou ao ataque e classificou a acusação como “denunciação caluniosa”, cobrando punição para Lindbergh e Soraya.
Se haverá alguma consequência jurídica para os autores da representação é outra história — e dependerá de procedimentos próprios.
E Moraes também manda arquivar
Como se o dia já não estivesse movimentado o suficiente, outra decisão do Supremo veio a público.
Alexandre de Moraes arquivou uma investigação envolvendo o senador Marcos do Val, além de Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ed Raposo.
Aqui existe uma diferença importante.
A decisão não foi tomada hoje.
Ela é de 4 de setembro, estava sob sigilo e somente agora se tornou conhecida.
Os quatro haviam sido indiciados pela Polícia Federal em agosto de 2025 sob suspeita de obstrução de investigações e incitação ao crime.
A investigação analisou publicações nas redes sociais, telefonemas, conversas privadas, informações fiscais e financeiras e depoimentos.
O foco era uma suposta campanha de exposição e intimidação contra integrantes da Polícia Federal e do próprio Supremo, particularmente o delegado Fábio Shor.
Depois de analisar o material, entretanto, a PGR chegou a uma conclusão que merece atenção.
PGR: faltaram provas
Segundo a Procuradoria, os elementos reunidos não demonstraram suficientemente a existência de uma articulação estruturada para incentivar crimes contra agentes públicos ou impedir as investigações conduzidas no Supremo.
A PGR observou que algumas condutas poderiam, em tese, envolver crimes contra a honra.
Mas havia outro obstáculo: esse tipo de infração depende de iniciativa do ofendido e, no caso analisado, faltava a representação necessária.
Moraes acompanhou integralmente a posição do Ministério Público e determinou o arquivamento.
Em português direto: a Polícia Federal investigou e indiciou; a PGR analisou e concluiu que as provas não sustentavam aquelas imputações; Moraes encerrou o caso.
A ironia do calendário
É aqui que Brasília oferece uma daquelas coincidências que praticamente escrevem sozinhas o roteiro político.
De um lado, o vice de um candidato à Presidência vê uma acusação gravíssima ser encerrada pelo Supremo 19 dias antes do segundo turno.
Do outro, justamente nesta mesma terça-feira, torna-se pública uma decisão que encerrou investigação contra personagens que durante anos estiveram no centro de alguns dos mais barulhentos embates com o STF.
Não há elemento que permita afirmar que qualquer dessas decisões tenha sido tomada em razão da eleição.
Mas há algo que o calendário não permite esconder: as consequências políticas das notícias desembarcam no meio da eleição. E eleições não acontecem em laboratórios. Acontecem nas ruas, nas redes sociais, nos programas eleitorais e na percepção do eleitor.
Acusação também tem consequência
Os dois episódios deixam ainda uma reflexão que ultrapassa direita e esquerda.
Investigar suspeitas sérias é obrigação das instituições. Mas existe enorme diferença entre alguém ser acusado, investigado, indiciado, denunciado, tornar-se réu e finalmente ser condenado.
Na velocidade das redes sociais, essas etapas frequentemente são colocadas no mesmo liquidificador. Primeiro vem a manchete, depois vêm os julgamentos instantâneos e, muitas vezes, quando chega o arquivamento, a repercussão já não é a mesma.
No caso de Alfredo Gaspar, isso assume importância ainda maior porque estamos falando do candidato a vice-presidente de uma chapa que disputa o Palácio do Planalto.
A acusação apareceu, virou notícia e foi explorada politicamente.
Agora também precisa virar notícia, com igual clareza, que a PGR não encontrou suporte suficiente para abertura do inquérito e Gilmar Mendes determinou seu arquivamento.
O Supremo e a eleição
O STF já ocupa espaço incomum na campanha presidencial de 2026.
Decisões envolvendo políticos, investigações, o caso Banco Master e discussões sobre os limites de atuação da Corte transformaram o tribunal em personagem frequente do debate eleitoral.
Os dois arquivamentos acrescentam mais um capítulo a essa história.
Curiosamente, desta vez, o Supremo não aparece abrindo investigação, autorizando busca, determinando bloqueio ou impondo medida cautelar.
A palavra do dia foi outra: arquivar.
Duas decisões. Personagens politicamente relevantes. Uma eleição presidencial no segundo turno.
Pode-se discutir muito sobre o significado político dessa coincidência.
Sobre o significado jurídico, porém, é melhor deixar a ironia de lado e registrar exatamente o que aconteceu. Em ambos os casos, a Procuradoria-Geral da República entendeu que faltavam elementos suficientes para sustentar as imputações investigadas, e os ministros responsáveis acolheram o arquivamento.
No calendário político brasileiro, entretanto, até o ponto final de um processo pode acabar funcionando como ponto de exclamação.
Da redação com informações Metropoles e Poder360…




