Ex-presidente interpreta resultado das urnas como desejo de mudança, critica “fórmulas repetidas” e anuncia apoio a Flávio Bolsonaro na disputa contra Lula
A entrada de Michel Temer (MDB) na campanha presidencial de segundo turno acrescentou nesta segunda-feira (5) uma voz de peso ao debate sobre os rumos do país. Presidente da República entre 2016 e 2018, Temer anunciou publicamente seu apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcada para 25 de outubro.
Mais do que simplesmente declarar seu voto, Temer apresentou uma interpretação política do resultado das urnas.
Para o ex-presidente, o primeiro turno demonstrou uma disposição do eleitorado por renovação. Ele relacionou essa leitura tanto à nova composição do Congresso Nacional quanto ao desempenho de Flávio, que terminou a primeira etapa da eleição presidencial na primeira colocação.
Com 100% da apuração concluída, Flávio recebeu 56.104.503 votos, ou 47,03% dos válidos. Lula obteve 53.879.538 votos, correspondentes a 45,16%. Como nenhum deles ultrapassou 50% dos votos válidos, a decisão ficou para o segundo turno.
“As urnas falaram”
Foi com essa frase que Temer iniciou sua manifestação.
Na avaliação do ex-presidente, o eleitor brasileiro demonstrou nas urnas desejo por mudança, atenção e respeito. Em seguida, fez uma crítica indireta ao ambiente político atual, afirmando que a sociedade não estaria interessada em repetir antigas fórmulas.
Temer resumiu sua posição em uma expressão que deverá acompanhar seu envolvimento na campanha: “reconexão”.
Segundo ele, o país procura “novas ideias, novas atitudes, novos projetos e um caminho diferente”. Ao concluir sua manifestação, associou diretamente essa proposta à candidatura de Flávio Bolsonaro.
O peso da manifestação de um ex-presidente
A declaração ganha relevância também pela trajetória de quem a fez.
Michel Temer chegou à Presidência em 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff, de quem havia sido vice-presidente. Permaneceu no Palácio do Planalto até o final de 2018 e, desde então, continuou participando do debate institucional brasileiro.
Foi durante seu governo, inclusive, que Alexandre de Moraes foi indicado para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, em 2017 — ministro que posteriormente se tornaria alvo frequente de críticas de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e de outros integrantes da direita.
Temer, portanto, não observa a política brasileira apenas como dirigente partidário. Fala também como alguém que ocupou a cadeira presidencial e acompanhou por dentro as relações entre Executivo, Congresso e Supremo.
Isso não torna sua interpretação das urnas uma verdade incontestável — trata-se da avaliação política do próprio ex-presidente —, mas dá às suas palavras uma dimensão diferente no debate do segundo turno.
Temer também carrega uma ruptura histórica com o PT
Existe ainda um componente político que ajuda a compreender sua decisão.
Temer foi vice-presidente nos governos Dilma Rousseff, mas rompeu politicamente com o PT durante a crise que terminou no impeachment da então presidente.
Depois de anunciar apoio a Flávio, ele também recordou as críticas recebidas desde aquele período. Em entrevista ao jornal O Globo, questionou como deveria reagir alguém que, depois de ocupar a Presidência, continuou sendo chamado de “golpista” por integrantes do PT.
Seu apoio em 2026, portanto, acontece depois de uma longa ruptura política. Ainda assim, há uma ressalva fundamental: Temer falou em nome próprio. O MDB ainda não havia definido, até a publicação desta matéria, uma posição nacional para o segundo turno.
Uma mensagem para ser analisada pelo eleitor
A fala de Temer chega num momento em que o país inicia três semanas decisivas de campanha.
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03%; Lula, com 45,16%. Agora, ambos precisarão dialogar também com milhões de brasileiros que escolheram outros candidatos, votaram em branco ou nulo ou não compareceram às urnas.
Nesse cenário, a declaração do ex-presidente coloca uma expressão no centro do debate: reconexão.
Mas caberá ao eleitor decidir o significado dessa palavra.
Reconexão com quais prioridades? Quais propostas concretas representam mudança? O que cada candidato pretende fazer na economia, segurança, saúde, educação e nas relações entre os Poderes?
São perguntas que não podem ser respondidas apenas por apoios políticos ou frases de campanha.
A manifestação de alguém que já ocupou a Presidência merece ser conhecida e analisada. A decisão, porém, continuará pertencendo exclusivamente ao eleitor brasileiro quando voltar à urna em 25 de outubro.
Temer já anunciou a sua escolha.
Agora, cada brasileiro terá três semanas para examinar as propostas, confrontar discursos com fatos e fazer a sua própria.
Da redação por Jorge Poliglota…


