Uma reportagem publicada pelo Poder360 colocou mais combustível na crise que tomou conta do Supremo Tribunal Federal em torno do caso Banco Master. Segundo o veículo, o ministro Gilmar Mendes enviou uma sequência de duras mensagens ao colega Kassio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cobrando sua postura nos processos relacionados às investigações que atingiram o entorno do ministro Alexandre de Moraes.

A conversa teria ocorrido na noite de 8 de setembro, exatamente uma semana antes do histórico julgamento da PET 16.662, no qual o Supremo passou a discutir se as informações encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro poderiam dar origem ao aprofundamento das investigações envolvendo Moraes.
O episódio ganha ainda mais importância porque, depois da troca de mensagens, Kassio bloqueou Gilmar Mendes no WhatsApp.
E, sete dias depois, já durante o julgamento de 15 de setembro, Kassio declarou-se impedido de votar.
Não existe, até o momento, prova pública de que uma coisa tenha causado a outra. Mas a sequência dos acontecimentos inevitavelmente abre espaço para questionamentos sobre o ambiente de pressão existente nos bastidores da mais alta Corte do país.
“Você tem de sair do TSE também”
Segundo a reportagem do Poder360, Gilmar iniciou a conversa cobrando Kassio e fazendo referências também ao ministro Luiz Fux.
Em uma das mensagens, Gilmar escreveu que Kassio e Fux pareciam “servis, submissos”. Depois, cobrou que os colegas “abrissem as contas” e afirmou que deveriam deixar determinados processos.
Kassio respondeu de maneira direta:
“Me respeite Gilmar. Isso não é postura.”
A discussão, porém, não terminou.
Gilmar então escreveu uma das frases mais delicadas de toda a conversa:
“Vc tem de sair do TSE também.”
A declaração merece atenção especial porque Kassio Nunes Marques ocupa atualmente justamente a Presidência do Tribunal Superior Eleitoral, responsável pela condução da Justiça Eleitoral durante as eleições de 2026.
Kassio respondeu que não continuaria conversando com quem não o respeitasse.
Gilmar voltou a exigir que o colega abrisse suas contas antes de participar do julgamento relacionado ao caso. Kassio afirmou que faria isso “com o maior prazer” e que prestava contas havia 15 anos.
Pouco depois, Gilmar encerrou a discussão afirmando, segundo a transcrição publicada pelo Poder360, que entendia “de malandro” e fazendo referência a “tramoias”.
Depois da altercação, Kassio bloqueou Gilmar no aplicativo.
O Poder360 informou que procurou a assessoria de Gilmar Mendes para comentar as mensagens, mas não havia recebido resposta até a publicação da reportagem.
Uma semana depois, Kassio não votou
É aqui que a cronologia se torna especialmente relevante.
No dia 15 de setembro, exatamente uma semana depois da discussão, Kassio Nunes Marques anunciou que não participaria da votação da PET 16.662.
O processo é justamente aquele no qual o STF passou a analisar o destino das informações produzidas pela Polícia Federal a partir do celular apreendido de Daniel Vorcaro.
Kassio apresentou publicamente sua justificativa.
Disse que, por ocupar a Presidência do TSE e diante da proximidade das eleições — faltavam apenas 19 dias para o pleito —, considerava que a controvérsia poderia produzir repercussões político-eleitorais. Por isso, decidiu não votar.
Essa é a explicação oficial e precisa ser registrada.
Entretanto, depois da revelação das mensagens trocadas uma semana antes, surge uma questão inevitável: a pressão exercida por Gilmar Mendes teve algum peso, mesmo que indireto, na decisão de Kassio?
Até agora não existe evidência pública que permita responder afirmativamente.
Mas existe material suficiente para justificar a pergunta.
Kassio também teve seu nome colocado no caso
A situação ficou ainda mais complexa porque informações extraídas do celular de Vorcaro também passaram a mencionar Kevin Nunes Marques, filho de Kassio.
Durante a sessão de terça-feira, o ministro fez questão de enfrentar publicamente o assunto.
Kassio negou qualquer relacionamento com o Banco Master, afirmou nunca ter trocado mensagens com Daniel Vorcaro e declarou possuir “absoluta isenção”.
Também negou que seu filho tenha prestado serviços ou recebido pagamentos do Banco Master.
O ministro chegou a afirmar que seus dados bancários já haviam sido quebrados e que não teria qualquer problema em permitir a verificação de suas informações.
Além disso, usou seus próprios votos para sustentar sua independência, lembrando que participou da decisão que confirmou a prisão de Daniel Vorcaro e de outros investigados.
Portanto, existe uma diferença importante: Kassio não admitiu qualquer relação com o Master e tampouco afirmou que as mensagens de Gilmar tenham provocado seu impedimento.
Mas por que Gilmar pressionava Kassio?
Essa talvez seja a questão politicamente mais relevante.
Por que um ministro do Supremo estaria enviando mensagens privadas a outro colega dizendo que ele deveria “sair dos processos”, “abrir as contas” e até deixar a Presidência do TSE?
O episódio ganha peso adicional porque Gilmar Mendes participou ativamente das discussões em torno da PET 16.662.
Dias antes do julgamento, ele também pediu acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, alegando que todos os ministros deveriam conhecer o conjunto das informações antes de votar.
Esse pedido, isoladamente, possui justificativa processual perfeitamente compreensível: um magistrado precisa conhecer os elementos do processo sobre o qual irá decidir.
O problema está na combinação dos acontecimentos.
De um lado, pedidos formais dentro do processo.
Do outro, mensagens privadas duríssimas dirigidas a um colega de Corte, inclusive sugerindo sua saída do TSE.
É essa mistura entre atuação processual e pressão privada que precisa ser esclarecida.
O caso Moraes-Vorcaro já era explosivo
A PET 16.662 nasceu depois que a Polícia Federal analisou dados encontrados no celular apreendido de Daniel Vorcaro.
Segundo o relatório divulgado, foram identificadas dezenas de mensagens enviadas pelo banqueiro e atribuídas a comunicações destinadas a Alexandre de Moraes. Em uma delas, pouco antes de sua prisão em novembro de 2025, Vorcaro teria perguntado se havia alguma novidade e se determinada situação havia sido “bloqueada”.
O relatório também reuniu documentos referentes ao contrato milionário existente entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Há limitações importantes no material: a própria PF informou que a análise realizada não era exaustiva, e parte das mensagens utilizava recursos que dificultavam a reconstrução integral dos diálogos.
Por isso, o debate central da PET 16.662 sempre foi justamente este: há elementos juridicamente válidos para aprofundar a investigação ou o material deve ser descartado?
Agora surge outro problema institucional
As mensagens reveladas pelo Poder360 adicionam uma nova camada ao caso.
Não demonstram, por si sós, que Gilmar Mendes tenha obrigado Kassio a abandonar o julgamento.
Não demonstram que Kassio tenha se declarado impedido por medo ou pressão.
E tampouco permitem concluir, sem outras provas, que houve alguma interferência ilícita no voto de um ministro.
Mas revelam algo que, institucionalmente, merece explicação: um ministro do Supremo dirigiu cobranças duríssimas a outro integrante da Corte sobre processos extremamente sensíveis e chegou a dizer que ele deveria deixar a Presidência do Tribunal Superior Eleitoral.
Isso aconteceu fora do plenário.
Fora dos autos.
Em uma conversa privada.
E poucos dias antes de um dos julgamentos mais importantes da história recente do STF.
Transparência agora é indispensável
O episódio deveria ser esclarecido pelos próprios envolvidos.
Gilmar Mendes pode explicar o contexto das mensagens e o significado das cobranças feitas ao colega.
Kassio Nunes Marques pode esclarecer se a discussão teve qualquer influência — ou nenhuma — sobre sua posterior decisão de não votar.
Essa transparência interessa principalmente ao próprio Supremo.
Porque existe uma diferença enorme entre divergência jurídica e pressão pessoal.
Ministros podem discordar.
Podem criticar votos.
Podem questionar decisões.
Isso faz parte de qualquer tribunal colegiado.
O que precisa ser esclarecido é se, no caso concreto, essa divergência ultrapassou os limites institucionais e se transformou em tentativa de constranger a atuação de outro magistrado.
A cronologia, por si só, não prova causalidade.
Mas ela é desconfortável.
Dia 8: Gilmar cobra Kassio, manda que ele abra suas contas, diz que deveria deixar processos e afirma que ele “tem de sair do TSE”.
Dia 15: Kassio Nunes Marques declara-se impedido e deixa de votar justamente no julgamento que poderia definir o avanço das investigações relacionadas a Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Pode ser coincidência.
Pode existir uma explicação absolutamente legítima.
A justificativa formal apresentada por Kassio foi a necessidade de preservar sua posição institucional como presidente do TSE diante da proximidade das eleições.
Mas, depois da divulgação das mensagens, existe uma pergunta que o Supremo dificilmente conseguirá afastar apenas com silêncio: a pressão privada exercida por Gilmar Mendes teve alguma influência sobre a decisão de Kassio Nunes Marques de não participar do julgamento da PET 16.662?
A resposta precisa vir dos fatos.
Porque, quando a discussão envolve ministros julgando questões relacionadas a outros ministros, não basta que exista independência.
A sociedade também precisa conseguir enxergá-la.
Da redação com informações Poder360




