Há objetos que servem apenas para marcar as horas. Outros acabam marcando épocas.
Em meio ao turbilhão de notícias envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo Tribunal Federal, lembrei-me daquela imagem tantas vezes reproduzida de Alexandre de Moraes usando no pulso um relógio de altíssimo valor.
E pensei: que extraordinária ironia.
O relógio de luxo e o relógio comprado no camelô possuem uma característica profundamente democrática: ambos avisam que o tempo está passando.
Não importa se o proprietário ocupa uma cadeira no Supremo, dirige um banco, trabalha atrás de um balcão ou conta moedas para pagar o supermercado.
Tic-tac.
O tempo não pergunta cargo.
Tic-tac.
Não pede currículo.
Tic-tac.
Muito menos se impressiona com poder.
Talvez seja essa uma das grandes ironias da existência: quanto mais poderoso alguém se sente, mais facilmente esquece que o relógio continua funcionando.
O poder tem um sério defeito: acaba
A história é um gigantesco depósito de homens que acreditaram ser eternos.
Presidentes, reis, imperadores, generais, magistrados, milionários e donos ocasionais da verdade absoluta passaram por ela convencidos de que determinadas manhãs jamais chegariam.
Chegaram.
Alguns terminaram homenageados. Outros, esquecidos. E alguns descobriram da maneira mais desagradável que a História possui uma peculiar mania de revisar seus personagens depois que os aplausos desaparecem.
Por isso, antes de decretar antecipadamente que Alexandre de Moraes “vai cair”, talvez exista uma reflexão mais interessante.
Ninguém sabe quando ou como terminará o ciclo de poder de Moraes. Mas uma coisa sabemos: terminará.
Como terminará o de Lula.
Como terminou o de Bolsonaro.
Como terminará o de qualquer presidente, ministro, senador, deputado, procurador ou governador.
O cargo permanece.
O ocupante passa.
É uma regra bastante antiga, embora Brasília tenha extraordinária dificuldade para compreendê-la.
E então apareceu Paulo Gonet…
Quando parecia que o enredo já possuía personagens suficientes, surgiu o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pedindo a nulidade da investigação determinada por André Mendonça.
E aqui a ironia praticamente escreve o artigo sozinha.
Gonet possui argumentos jurídicos para sustentar que Mendonça teria ultrapassado os limites de atuação de um magistrado. Essa discussão precisa ser levada a sério e será decidida institucionalmente.
O detalhe politicamente inconveniente é outro.
O próprio nome do procurador-geral aparece nas mensagens atribuídas a Vorcaro que estão no centro dessa controvérsia.
Então imagine a cena aos olhos do cidadão comum:
— Encontramos uma mensagem mencionando o senhor.
— Interessante.
— Devemos investigar?
— Primeiro precisamos discutir se essa prova deveria existir.
Convenhamos: do ponto de vista da comunicação institucional, não é exatamente uma obra-prima.
Isso não prova culpa de Gonet. Não demonstra que ele tenha oferecido qualquer “proteção” a Vorcaro e tampouco transforma uma mensagem unilateral de um investigado em evidência de corrupção.
Mas produz uma pergunta incômoda.
E perguntas incômodas possuem outra característica irritante: raramente desaparecem quando alguém tenta fechá-las dentro de uma gaveta processual.
O problema das amizades quando o vento muda
Brasília possui também uma curiosa meteorologia.
Quando o vento sopra favoravelmente, todo mundo conhece todo mundo.
Há encontros, jantares, telefonemas, mensagens, cumprimentos, intermediários e amigos dos amigos.
Quando aparece uma investigação, ocorre um fenômeno climático impressionante.
Subitamente, ninguém conhece ninguém.
Contatos viram coincidências. Conversas tornam-se institucionais. Proximidades passam a ser meramente circunstanciais.
Talvez tudo realmente possua explicação perfeitamente legítima.
Ótimo.
Então investigue-se e esclareça-se.
Porque a melhor defesa de alguém inocente não deveria ser o desaparecimento das perguntas, mas a existência das respostas.
O Rolex e o camelô
Voltemos ao relógio.
Não porque determinado modelo prove alguma coisa — não prova —, mas porque funciona maravilhosamente como metáfora.
Imagine dois homens.
Um possui no pulso um relógio que custa mais que uma casa.
Outro consulta as horas num aparelho comprado em doze prestações.
Quando chegam às 23h59, ambos estão exatamente a sessenta segundos da meia-noite.
O luxo pode diferenciar patrimônio.
Não consegue comprar um minuto adicional.
E talvez essa seja a lição que frequentemente escapa aos poderosos.
Eles passam tanto tempo olhando de cima que esquecem que existe um calendário em cima da mesa.
Mandatos terminam.
Maiorias mudam.
Governos acabam.
Tribunais renovam suas composições.
Aliados desaparecem.
Documentos aparecem.
Arquivos são encontrados.
Testemunhas resolvem falar.
E aquilo que parecia impossível numa terça-feira pode se transformar na manchete de quinta.
Tic-tac.
A consciência possui um despertador particularmente desagradável
Existe ainda outro relógio, muito mais barato e infinitamente mais difícil de esconder dentro do paletó.
A consciência.
Essa não precisa de bateria suíça.
Quem atravessa a vida pública com a consciência tranquila talvez perca eleições, cargos, prestígio e dinheiro. Ainda assim, conserva um patrimônio que não aparece na declaração de bens: colocar a cabeça no travesseiro sem precisar negociar consigo mesmo antes de dormir.
Quem eventualmente ultrapassa os limites da lei pode até acreditar, durante algum tempo, que venceu.
Pode possuir dinheiro.
Pode ter influência.
Pode contar com amigos poderosos.
Pode acreditar que determinada investigação nunca acontecerá.
Mas existe um problema.
O tempo continua passando.
E Justiça verdadeira não deveria funcionar pela identidade do investigado. Se houver provas contra um cidadão comum, investigue-se. Se houver contra um banqueiro, investigue-se. Se alcançarem políticos, investigue-se.
E se algum dia existirem elementos concretos contra ministros, procuradores ou dirigentes das próprias instituições encarregadas de investigar?
Investigue-se também.
Essa deveria ser a parte menos revolucionária desta história.
Moraes vai cair?
Não sei.
Quem disser hoje que sabe exatamente o desfecho dessas investigações está substituindo informação por torcida.
Alexandre de Moraes pode continuar no STF durante anos. As suspeitas atualmente discutidas podem não produzir qualquer responsabilização. Mensagens atribuídas a Vorcaro precisam ser contextualizadas, periciadas e confrontadas com outros elementos antes de servirem para conclusões sérias.
Mas existe algo que posso afirmar sem consultar processo algum:
o poder de Alexandre de Moraes acabará.
Assim como o de todos nós sobre aquilo que temporariamente controlamos.
Talvez daqui a muitos anos.
Talvez politicamente antes.
O importante não é profetizar a queda de uma pessoa.
É compreender que ninguém deveria construir sua vida acreditando que jamais será chamado a explicar aquilo que fez enquanto estava no alto.
Porque existe uma enorme diferença entre cair e ser derrubado pela própria história.
No final, sobra o nome
Um dia não haverá gabinete.
Não haverá segurança abrindo porta.
Não haverá jornalistas esperando declaração.
Não haverá subordinados dizendo “sim, senhor”.
Restará aquilo que sempre resta quando o poder termina:
o nome.
E junto dele uma pergunta muito simples:
O que essa pessoa fez quando possuía poder?
Usou-o com equilíbrio ou abusou dele?
Protegeu instituições ou protegeu interesses?
Aceitou ser fiscalizada ou tentou impedir que olhassem para seus próprios atos?
Essas respostas não devem ser dadas pela paixão política. Precisam ser dadas pelos fatos.
Mas chegará o momento em que serão dadas.
Para Moraes.
Para Gonet.
Para Vorcaro.
Para André Mendonça.
Para Lula, Bolsonaro e qualquer outro personagem que hoje ocupe o centro do palco.
Porque ninguém permanece eternamente debaixo dos holofotes.
E talvez seja essa a grande lição daquele relógio caro que tanto chama atenção.
Não importa quanto custou.
Não importa quem o comprou.
Não importa quem o usa.
No final das contas, ele realiza exatamente o mesmo serviço daquele relógio simples pendurado na parede da cozinha:
avisa que o tempo está passando.
Tic-tac.
Tic-tac.
Tic-tac.
E, quando chegar a hora da prestação de contas, não haverá Rolex capaz de atrasar o ponteiro.
Porque o poder pode até comprar relógios caríssimos.
O que ele nunca conseguiu comprar foi mais tempo — muito menos absolvição da História.
Poliglota é jornalista e editor-chefe do Portal Opinião Brasília…


