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Marçal pode virar peça-chave da direita em eventual segundo turno entre Flávio e Lula

Apesar das incertezas jurídicas sobre sua candidatura, Pablo Marçal ocupa um espaço eleitoral que pode ser decisivo. Seu histórico recente de aproximação com Flávio Bolsonaro torna plausível uma união contra Lula no segundo turno, enquanto movimentos do Centrão revelam um cenário bem mais complexo

A entrada de Pablo Marçal na corrida presidencial de 2026 acrescentou um ingrediente importante a uma eleição que caminha para ser novamente marcada pela polarização. Mais do que os votos que eventualmente consiga conquistar no primeiro turno, Marçal pode assumir uma função estratégica caso a disputa final coloque frente a frente Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Antes de qualquer análise política, porém, existe uma ressalva indispensável: a candidatura de Marçal enfrenta um sério obstáculo jurídico. O Tribunal Superior Eleitoral concedeu, em 20 de agosto, uma liminar que o impede, por enquanto, de utilizar recursos públicos de campanha, participar da propaganda eleitoral gratuita e praticar outros atos de propaganda. O TSE ainda analisará o mérito do pedido de registro. Além disso, decisão recente do TRE-SP manteve sua inelegibilidade até 2032. Portanto, sua permanência efetiva na eleição depende da Justiça Eleitoral.

Superada essa questão — ou mesmo considerando apenas sua influência política sobre parte do eleitorado —, Marçal representa um personagem diferente de boa parte das candidaturas alternativas.

A aproximação com Flávio não começou agora

Existem fatos concretos que tornam bastante plausível um eventual apoio de Marçal a Flávio Bolsonaro no segundo turno.

Em março, quando ainda estava no União Brasil, Marçal declarou que trabalharia para que sua legenda apoiasse Flávio Bolsonaro e afirmou que tentaria transformar seu apoio pessoal ao senador em posição partidária.

No mês seguinte, foi ainda mais abrangente: disse que apoiaria os candidatos da direita contra Lula e já havia manifestado apoio a Flávio.

Agora, em plena campanha, o movimento ocorre também na direção contrária. Em 20 de agosto, Flávio incluiu publicamente Marçal entre as lideranças que considera importantes para uma união contra o PT, classificando-o como alguém preparado e defendendo que divergências sejam superadas para construir uma frente mais ampla.

Portanto, imaginar Marçal apoiando Flávio em uma eventual disputa contra Lula não exige especulação mirabolante. Há um histórico recente de declarações e gestos políticos apontando exatamente nessa direção.

Marçal poderia funcionar como uma ponte

É aí que sua presença ganha relevância.

Marçal conversa com um segmento do eleitorado que não necessariamente se identifica integralmente com o bolsonarismo tradicional, mas mantém posições conservadoras, rejeição ao PT e forte identificação com discursos ligados ao empreendedorismo, liberdade econômica e redução da presença do Estado.

Num segundo turno apertado, esse eleitorado pode fazer diferença.

Pesquisas recentes mostram justamente o tamanho do desafio. O levantamento BTG/Nexus divulgado em 24 de agosto colocou Lula com 46% e Flávio com 45% em uma simulação de segundo turno. Já o Datafolha apontou 47% para Lula e 43% para Flávio. Ou seja, embora os institutos apresentem diferenças, estamos falando de uma disputa potencialmente competitiva.

Nesse cenário, quatro ou cinco pontos não são detalhe.

E Marçal apareceu com 4% no cenário presidencial da pesquisa BTG/Nexus que incluiu seu nome, embora sua situação jurídica permaneça pendente.

Isso ajuda a explicar por que Flávio evita transformar Marçal em inimigo. Em uma eleição de margens estreitas, conquistar parte significativa dos eleitores de candidatos eliminados pode ser tão importante quanto ampliar o próprio eleitorado durante o primeiro turno.

Kassab revela um problema maior para Flávio

Existe, entretanto, outro elemento que merece atenção: o comportamento das grandes estruturas partidárias.

Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado, fez uma declaração contundente no último dia 13. Disse considerar “zero” a possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer e sustentou que os partidos do Centrão, embora formalmente neutros, estariam na prática com Lula.

A declaração é politicamente reveladora.

Não significa que todos os partidos, dirigentes e principalmente eleitores do Centrão votarão em Lula. Essas legendas são heterogêneas, possuem interesses estaduais diferentes e dificilmente transferem seus votos como se fossem blocos homogêneos. A própria reportagem sobre as articulações do grupo registra divergências regionais e indica que futuras decisões poderão depender do cenário eleitoral.

Mas Kassab expôs algo que a direita precisa observar: um eventual segundo turno entre Lula e Flávio não garante automaticamente que toda candidatura hoje apresentada como oposição ao governo federal embarcará no palanque de Flávio.

Há candidatos e partidos que tentarão preservar seus próprios projetos, outros poderão liberar suas bases e haverá aqueles que poderão se aproximar do governo por conveniência política.

É justamente nesse ponto que Marçal pode se diferenciar.

Partido é uma coisa; eleitor é outra

Também seria precipitado classificar todos os demais candidatos como representantes de um “viés esquerdista”. Ronaldo Caiado e Romeu Zema, por exemplo, possuem trajetórias claramente associadas à direita ou à centro-direita.

A questão mais interessante não é ideológica, mas político-partidária.

O eleitor de direita pode tomar uma decisão independentemente da orientação dada pelo comando de seu partido. Isso já aparece nas pesquisas. Dados recentes do Datafolha citados pela Folha mostram que, em uma hipótese de segundo turno, 60% dos eleitores de Zema e 54% dos eleitores de Caiado declaravam intenção de votar em Flávio contra Lula.

Portanto, uma coisa é o que decidirão Kassab, PSD, União Brasil, PP, Republicanos e outras cúpulas partidárias. Outra, completamente diferente, é para onde caminhará o eleitor conservador quando restarem apenas duas opções na urna.

Marçal poderá ter que escolher um lado

Caso consiga superar seus obstáculos jurídicos e permanecer na disputa, Pablo Marçal poderá utilizar o primeiro turno para defender seu próprio projeto. Isso faz parte da lógica eleitoral.

Mas, se as urnas produzirem um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, a neutralidade poderá se tornar politicamente mais difícil.

Marçal construiu boa parte de sua imagem junto a um público crítico ao PT, defensor do empreendedorismo e próximo de valores conservadores. Depois de declarar apoio à direita contra Lula e de já ter demonstrado disposição para apoiar Flávio, uma guinada em direção ao petista exigiria uma explicação difícil ao seu próprio eleitorado.

Por isso, entre os personagens que hoje orbitam fora da candidatura de Flávio, Marçal aparece como um dos nomes com sinais mais claros de que poderia desembarcar em seu palanque num eventual segundo turno contra Lula.

Não necessariamente por submissão ao bolsonarismo, mas por convergência eleitoral e pela percepção de que, numa disputa binária, seu eleitorado provavelmente cobraria uma definição.

Kassab aposta que Flávio não chegará ao Planalto e afirma que o Centrão está, na prática, com Lula. Marçal vem sinalizando outra direção: a construção de uma união da direita contra o petista.

São duas leituras completamente diferentes da mesma eleição.

E talvez esteja justamente aí uma das grandes batalhas de outubro: mais do que saber quem chegará ao segundo turno, será preciso observar quem estará disposto a atravessar a ponte quando restarem apenas dois candidatos.

Se forem Lula e Flávio Bolsonaro, Pablo Marçal poderá deixar de ser apenas um concorrente do primeiro turno para se transformar em uma peça importante na tentativa de reunificação do eleitorado de direita.

Da redação por Jorge Poliglota…

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