A campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou um problema que dificilmente poderá ser tratado como assunto secundário. As investigações da Polícia Federal envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, avançaram sobre mensagens e relações que, na avaliação dos investigadores, levantam suspeitas de tráfico de influência e possível corrupção em negociações relacionadas a órgãos do próprio governo federal.
O caso ainda está sob investigação e não existe condenação contra Lulinha. Sua defesa nega irregularidades. Politicamente, entretanto, as sucessivas revelações já começam a produzir um desgaste que atinge diretamente a estratégia eleitoral do presidente.
Segundo informações reveladas pelas investigações, a Polícia Federal identificou mensagens entre Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger, nas quais aparecem referências a reuniões e negócios. A PF passou a investigar se a proximidade do filho do presidente teria sido utilizada para facilitar interesses privados dentro da administração federal.
As mensagens foram encontradas no celular de Roberta e levaram a Polícia Federal a pedir a abertura de novo inquérito para investigar possível tráfico de influência. A existência dessas conversas foi confirmada por diferentes veículos de imprensa.
PF aponta possível “comunhão de interesses econômicos”
As informações conhecidas nesta sexta-feira tornam o quadro ainda mais delicado.
Segundo reportagem baseada no material da investigação, a Polícia Federal apontou uma possível “comunhão de interesses econômicos” entre Lulinha e Roberta Luchsinger em tratativas destinadas à obtenção de negócios com o governo federal.
Uma das linhas investigadas envolve tentativa de comercialização de medicamentos à base de canabidiol junto ao Ministério da Saúde. A PF investiga se Roberta atuava como intermediária e se Lulinha poderia ser beneficiário indireto dessas articulações. A tentativa de negócio, segundo as informações disponíveis, não resultou em contrato formal com o ministério.
Outro elemento que chama atenção dos investigadores é a circulação de Roberta por ambientes próximos ao governo.
A PF identificou, por exemplo, a participação do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, na intermediação de uma reunião entre Roberta e Swedenberger Barbosa, que ocupava a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. Depois da reunião, segundo a investigação, uma minuta de contrato para venda de produtos foi enviada. Marcola nega irregularidades.
Isso ajuda a explicar por que a investigação ganhou relevância: a questão deixou de ser apenas a amizade entre Lulinha e uma lobista e passou a envolver a suspeita de que essa proximidade poderia ter sido utilizada para abrir portas dentro da estrutura federal.
Mensagens aumentam o problema político
Outra revelação acrescentou combustível à crise. Mensagens atribuídas a Roberta indicam que ela teria afirmado que Lula lhe ofereceu uma posição no governo. Segundo a reportagem que revelou o conteúdo, ela teria respondido que preferia manter seus negócios com Lulinha e Fernando Bittar.
Isso não comprova, por si só, participação do presidente em qualquer irregularidade. Lula não é apontado nessa investigação como responsável pelos supostos negócios e já declarou que seu filho não receberá proteção caso tenha cometido alguma ilegalidade.
Mas politicamente a sequência de revelações é extremamente desconfortável.
A campanha de Lula passa a conviver diariamente com novas informações retiradas de uma investigação que envolve justamente seu filho e suspeitas relacionadas ao uso de influência dentro do governo comandado pelo próprio pai.
Vazamentos preocupam aliados e campanha petista
Nos bastidores, o incômodo já chegou à campanha presidencial.
Reportagens apontam que aliados reconhecem que o chamado “fator Lulinha” produz desgaste e dificulta a estratégia eleitoral petista. O problema ganhou dimensão ainda maior porque novas informações das investigações vêm chegando sucessivamente ao noticiário.
A defesa de Lulinha reclama justamente desses vazamentos, que considera seletivos e politicamente motivados. Lula chegou a receber o advogado do filho no Palácio da Alvorada, ocasião em que foram apresentadas reclamações sobre a divulgação de dados da investigação. O presidente, segundo a reportagem, orientou que o filho colabore e reiterou que não pretende interferir no trabalho da Polícia Federal.
O problema eleitoral é evidente: mesmo que a defesa consiga posteriormente demonstrar que não houve crime, o impacto político das revelações acontece agora, a poucas semanas das eleições.
Caso enfraquece uma das armas eleitorais do PT
Existe ainda uma consequência estratégica importante.
A campanha de Lula pretendia explorar acusações e investigações envolvendo adversários, especialmente Flávio Bolsonaro. O aparecimento do caso Lulinha dificulta essa ofensiva porque oferece aos adversários uma resposta imediata sempre que o tema da corrupção aparece.
Reportagens sobre os bastidores petistas apontam justamente essa dificuldade: as investigações envolvendo Lulinha recolocaram o assunto corrupção dentro da campanha e complicaram a estratégia de concentrar ataques sobre Flávio Bolsonaro.
A oposição percebeu a oportunidade. O PL já decidiu utilizar politicamente as investigações envolvendo Lulinha durante a campanha, o que indica que o assunto deverá aparecer com força nos debates, entrevistas e na propaganda eleitoral.
O maior perigo pode estar no que ainda não foi revelado
Para a campanha de Lula, talvez esse seja o aspecto mais difícil de administrar.
Não se trata apenas do conteúdo já conhecido, mas da incerteza sobre quais outras mensagens, documentos ou informações poderão surgir até a eleição.
A PF mantém três inquéritos relacionados a suspeitas envolvendo Lulinha. Um deles trata de possível atuação relacionada à World Cannabis e ao Ministério da Saúde; outro investiga possível tentativa de beneficiar um empresário junto à Dataprev; e um terceiro apura outras suspeitas de tráfico de influência, além de questões relacionadas ao vazamento de informações sigilosas.
Cada nova revelação força a campanha presidencial a responder novamente sobre o filho do candidato, desviando espaço que poderia ser utilizado para apresentar propostas ou atacar adversários.
Isso não autoriza concluir antecipadamente que Lulinha cometeu crime. Suspeita policial não é condenação, mensagens precisam ser analisadas dentro de seu contexto e os investigados possuem direito à defesa e à presunção de inocência.
Politicamente, porém, a situação é diferente.
A investigação já transformou Lulinha em um dos principais pontos vulneráveis da campanha presidencial. O que Lula e seus estrategistas precisam descobrir agora é como impedir que uma investigação envolvendo o filho do presidente se transforme, nas semanas decisivas da eleição, em uma investigação politicamente inseparável do próprio governo que busca mais quatro anos no poder.
Da redação…




