A História ensinou aos povos que existe um custo humano pessoal necessário à defesa da liberdade e da democracia. Fingir que esse custo não existe, resignando-se a um pertencimento confortável, pode ser uma forma sofisticada de autoengano, ou falta de compaixão para com seus semelhantes cidadãos, ou ainda cinismo puro. Há sim um desgaste psicológico, social e moral cada vez maior, na tutela da liberdade. Mas não é preciso heroísmo, ou menosprezar a política, para que alguém valendo-se de fatos escolha sustentar ideias e defender valores, sem se ajoelhar a um político específico, sem reverberar narrativas ideológicas rasas e sem transformar convicção em seita.
Duas fábulas podem funcionar como espelho da “epidemia de inércia” das pessoas de bem do Brasil, que inexplicavelmente não estão considerando suas responsabilidades na defesa da liberdade, têm abdicado diariamente de seus direitos e se omitido diante de injustiças, deixando de sustentar seus valores até na ceia de Natal da família.
A primeira vem dos sertanejos do Nordeste. Contam que, se alguém jogar um sapo em água fervente, ele pula imediatamente para escapar. Mas se você colocar o sapo em água fria e aquecê-la aos poucos, ele não percebe o aumento gradual da temperatura — até ser cozido sem reagir. Mudanças lentas e não bem compreendidas, com o desconforto sendo aumentado aos poucos, causam uma adaptação gradual ao risco, fazendo com que o ponto de ruptura não seja percebido no presente, ou visualizado como futuro, gerando a chamada inércia por acomodação. É essa a atitude das pessoas de voto nulo ou em branco, dos aposentados ludibriados pela corrupção no INSS, dos conservadores intimidados nas universidades, dos militares diante dos revanchistas de plantão, que cassam – considerando privilégios – prerrogativas e direitos profissionais, conquistados pela farda em décadas de lutas.
A segunda é uma fábula atribuída ao escravo grego Esopo, sobre uma infestação de ratos em uma fazenda, então ameaçados por um enorme gato comprado pelo fazendeiro. Diante da possibilidade do extermínio da colônia, os ratos se reuniram em assembleia e passaram a discutir o problema. Foi quando um jovem camundongo propôs uma solução brilhante: colocar um guizo no pescoço do gato, o que faria todos ouvirem sua aproximação, fugindo a tempo. A ideia foi aplaudida efusivamente pela rataria, até que uma velha ratazana perguntou: quem vai colocar o guizo no pescoço do gato? Aqui, a “solução” se apresenta como de risco elevado, e o problema é outro: trata-se do custo do agir, acarretando o que podemos chamar de uma inércia por cálculo racional. Hoje, nessa postura, podemos listar as Forças Armadas, a Polícia Federal, o Congresso, a OAB, a CNBB, as Federações e Confederações da Indústria e do Comércio, e todos os homens de bem não partícipes do butim da corrupção que grassa no país.
Sistemas – ou governos – entram em crise não porque faltem soluções, mas porque muitas vezes os problemas demoram a ser percebidos como tal, e quando as soluções ficam mais evidentes, o custo de aplicá-las já se tornou proibitivo. E a democracia começa quando alguém decide agir pelo outro, mesmo quando não é obrigado. Isso é custo assumido voluntariamente.
No Brasil de hoje, a inércia antidemocrática é o maior problema.
Não há qualquer reação efetiva de fato ou de direito dos cidadãos brasileiros contra as progressivas decisões inconstitucionais do STF. Não se vê protesto quanto à letargia cúmplice da PGR sobre a investigação de comprovados escândalos financeiros de conhecimento público. O crime e os criminosos estão sendo acobertados pela própria Justiça, com chicanas judiciais que abusam da inteligência de qualquer pessoa informada. Não se observa reação ou desobediência quanto à desenfreada sanha de arrecadação de impostos do governo, que se nega a cortar gastos públicos. Não se vê a intelligentsia sequer questionar a miopia geopolítica do presidente, que conseguiu se indispor com todos os históricos aliados, sem com isso obter qualquer vantagem, que alardeia internacionalmente seu alinhamento com ditaduras e terroristas, e desafia os EUA, orgulhando-se de ter o mesmo sangue de Lampião, um bandido. São evidentes as provas de que já passamos da “fase do sapo”.
Na banheira dos nunca concretizados planos e promessas, na água morna da corrupção, os atores políticos se aclimataram, a imprensa ensaboou narrativas, e a cobrança dos “malfeitos” escorreu pelo ralo como “fascismo”, tendo juízes, intelectuais e artistas atuado como ativistas, até nos acostumarem à fervura do autoritarismo como “defesa da democracia”. O “novo normal” despótico escaldou a coragem, fazendo evaporar-se a consciência política, a visão estratégica e o senso de justiça dos brasileiros, desidratando todas as iniciativas de baixo custo e menos doloridas para se mudar a situação.
Agora, estamos na crítica “fase do guizo”: é quando se lembram do Exército. Mas só restaram duas alternativas: ou se consegue reduzir o custo do agir, ou se aumenta o custo do não agir.
Gen Marco Aurélio Vieira – Foi Comandante da Brigada de Operações Especiais e da Brigada de Infantaria Paraquedista.
Por Ultima Hora em 13/04/2026



