A confirmação de que o governador Ibaneis Rocha deixará o Palácio do Buriti no próximo dia 28 de março não é apenas um movimento administrativo — é um gesto político calculado, carregado de simbolismo e estratégia. Ao optar por se desincompatibilizar dentro do prazo legal para disputar o Senado, Ibaneis transforma sua saída em ponto de partida para uma nova etapa de protagonismo nacional.
O governador encerra seu ciclo à frente do Governo do Distrito Federal com números robustos de aprovação popular, sustentados por entregas visíveis em infraestrutura, mobilidade urbana, regularização fundiária e políticas sociais. Mesmo enfrentando crises políticas e momentos de tensão institucional ao longo do mandato, conseguiu manter uma base eleitoral sólida e consolidar uma imagem de gestor pragmático, com forte presença nas cidades satélites.
Sua possível candidatura ao Senado se apoia justamente nesse capital político acumulado. Ibaneis não parte do zero — parte de um governo com marca registrada, alianças costuradas e recall eleitoral consolidado. Para a esquerda do Distrito Federal, o cenário é tudo menos confortável.
O alerta vermelho se acende porque a disputa pela cadeira no Senado pode reunir três nomes de peso no campo conservador: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a deputada federal Bia Kicis e o próprio Ibaneis. Independentemente de quem venha a ser o escolhido ou como se dará a composição final, o fato é que o eleitorado de centro-direita no DF demonstra musculatura suficiente para tornar a eleição altamente competitiva.
Ibaneis leva para o debate nacional a experiência de quem governou a capital do país em tempos turbulentos, dialogou com diferentes Poderes e sobreviveu politicamente a pressões que derrubariam muitos outros gestores. Sua saída do Buriti, portanto, não soa como despedida — soa como transição estratégica.
O Senado Federal, em 2026, pode ganhar um nome com trânsito institucional, capacidade de articulação e legitimidade nas urnas. E é justamente esse conjunto de atributos que preocupa adversários: um candidato com máquina administrativa no currículo, aprovação popular consistente e discurso afinado com grande parcela do eleitorado brasiliense.
Se a cadeira será ocupada por Michelle, Ibaneis ou Bia Kicis ainda dependerá das composições partidárias e do desenho final das alianças. Mas uma coisa é certa: a esquerda terá trabalho redobrado para enfrentar um bloco conservador que, ao que tudo indica, chega organizado, competitivo e com forte apelo popular.
A corrida começou antes mesmo do calendário oficial. E a saída de Ibaneis do Buriti marca o primeiro grande movimento dessa disputa que promete estremecer o cenário político do Distrito Federal.
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília




