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Quando o discurso vira munição: Lula troca a conciliação pela lógica da “guerra”

A fala do presidente Lula em um evento do PT na Bahia, ao afirmar que a próxima eleição será uma “guerra”, não é apenas uma metáfora infeliz — é um sinal preocupante de mudança de postura que pode ter consequências graves no já tensionado ambiente político brasileiro. Ao cravar que “não tem essa mais de Lulinha paz e amor”, o presidente abandona publicamente o personagem conciliador que o ajudou a retornar ao poder e passa a flertar com uma retórica de confronto permanente.

Quando um chefe de Estado utiliza o termo “guerra” para se referir a uma disputa eleitoral, ele não fala apenas para dirigentes partidários. Ele fala para uma militância historicamente mobilizada, emocionalmente engajada e, muitas vezes, disposta a ir além do debate político saudável. A mensagem que ecoa não é apenas de combatividade política, mas de enfrentamento, de nós contra eles, de intolerância ao contraditório.

A orientação para que militantes “reajam” a críticas e ataques nas redes sociais pode até ser compreendida dentro da lógica da comunicação digital moderna. No entanto, vinda do presidente da República, essa fala ganha outro peso. Em um país marcado por radicalização, violência política e intolerância crescente, o incentivo ao embate direto — ainda que verbal — pode facilmente ultrapassar os limites do discurso e se transformar em atitudes mais agressivas.

A frase “não tem essa mais de Lulinha paz e amor” simboliza o rompimento definitivo com qualquer tentativa de descompressão política. Em vez de liderar pelo exemplo da serenidade institucional, Lula parece optar por importar a mesma lógica beligerante que sempre criticou em seus adversários. Ao fazer isso, corre o risco de nivelar o debate político por baixo e legitimar excessos praticados em nome de uma causa.

Outro ponto sensível é o recado interno ao próprio PT. Ao criticar a atuação do partido no Congresso e alertar contra o excesso de confiança, Lula demonstra insegurança com o desempenho político do governo e aposta na radicalização como estratégia de mobilização. O problema é que a radicalização pode até engajar a base mais fiel, mas afasta o eleitor moderado — justamente aquele que costuma decidir eleições.

Transformar eleições em “guerras” não fortalece a democracia; ao contrário, fragiliza-a. Democracias se constroem com disputa de ideias, não com linguagem de trincheira. Quando o presidente da República adota esse tom, ele não apenas inflama sua militância, mas contribui para um ambiente em que o adversário deixa de ser um oponente legítimo e passa a ser tratado como inimigo.

No fim, a grande questão é se Lula governa para pacificar o país ou para mantê-lo em permanente estado de conflito. A história mostra que discursos de guerra raramente ficam restritos às palavras. E quando a retórica se radicaliza no topo, o preço costuma ser pago na base da sociedade.

**Poliglota é jornalista, especialista em políticas públicas do DF e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília

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