O presidente Lula entra em mais um ano eleitoral enfrentando um problema que ele próprio ajudou a criar: a dificuldade crescente de diálogo com um Congresso cada vez mais pragmático, fragmentado e avesso a radicalismos ideológicos. Em vez de ampliar pontes e reduzir atritos, o Planalto optou por reforçar a presença de nomes identificados com a ala mais dura da esquerda, como Gleisi Hoffmann (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) — escolhas que, para a maioria do Congresso e para analistas políticos, foram tudo, menos estratégicas.
O Congresso Nacional de hoje não é o Congresso das narrativas. É o Congresso dos números, das emendas, da sobrevivência eleitoral e do poder local. Deputados e senadores pensam menos em slogans e mais em reeleição, orçamento e base eleitoral. Nesse ambiente, figuras associadas ao confronto permanente, ao discurso ideológico rígido e à hostilidade ao centro político funcionam mais como fator de ruído do que como solução.
Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, carrega um histórico de embates públicos com o Legislativo, ataques frequentes a adversários e uma postura que agrada à militância, mas gera resistência imediata entre líderes partidários do Centrão — grupo que, goste-se ou não, controla as chaves do cofre e da governabilidade. Já Guilherme Boulos, símbolo da esquerda ativista e de pautas que assustam o eleitor médio e boa parte do Congresso, representa um projeto eleitoral legítimo, porém pouco funcional quando o objetivo é construir maioria parlamentar.
Em ano eleitoral, esse cenário se torna ainda mais delicado. Parlamentares não querem ser associados a pautas radicais, discursos de confronto institucional ou propostas que possam ser exploradas por adversários em campanhas locais. O resultado é previsível: distanciamento, desconfiança e paralisia. Projetos travam, negociações emperram e o governo passa a depender cada vez mais de concessões caras — políticas e orçamentárias — para aprovar o mínimo necessário.
Especialistas em articulação política são quase unânimes ao apontar que Lula, conhecido no passado por sua habilidade de diálogo amplo, parece hoje prisioneiro de uma lógica interna do PT que prioriza fidelidade ideológica em detrimento da governabilidade. Ao insistir em nomes que falam para a bolha, o presidente perde capacidade de falar com o Brasil real — aquele que se reflete no Congresso Nacional.
O risco é evidente: um governo acuado, sem base sólida, refém de negociações emergenciais e incapaz de impor agenda. Em vez de liderar o processo político, Lula reage a ele. Em vez de construir consensos, administra crises. E em política, especialmente em ano eleitoral, quem só reage, perde espaço.
No fim das contas, a escolha por radicalizar pode até animar setores da esquerda, mas cobra um preço alto: isolamento político, dificuldade de governar e um Congresso cada vez menos disposto a comprar as brigas ideológicas do Planalto. Lula, que já foi mestre na arte da conciliação, corre o risco de entrar para a história como o presidente que preferiu agradar a militância e perdeu o controle da articulação política.
**Poliglota é jornalista e Editor-chefe do Portal Opinião Brasília





