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“Tudo de graça”

Pressionado pela queda na popularidade, Lula faz comício travestido de pronunciamento oficial e oferece ‘tudo de graça’ a um eleitor que já não se deixa seduzir facilmente pelo seu falatório

No pronunciamento que fez em rede nacional de rádio e televisão anteontem, o presidente Lula da Silva exibiu mais um elemento do manual de marketing adotado pelo novo ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira. Nessa cartilha da comunicação presidencial, produzida sob a lógica de comitê eleitoral, revogam-se todas as disposições legais, morais ou políticas em desfavor de uma comunicação pública, republicana, impessoal e apartidária. O mundo mágico de Lula da Silva e de Sidônio Palmeira é outro.

Em pouco mais de dois minutos, o presidente leu o roteiro do seu marqueteiro não como chefe de Estado, mas como candidato; fez um comunicado não como uma prestação de contas ou informação de interesse público destinada à população, mas como uma peça de propaganda eleitoral; apresentou dois programas de seu mandato não como novidade ou celebração de um marco digno de tal, mas como uma das patranhas tipicamente lulopetistas que servem de louvação aos poderes sobrenaturais de Lula da Silva.

“Uma dupla que não é sertaneja, mas que está mexendo com o Brasil: o Pé-de-Meia e o novo Farmácia Popular”, anunciou o presidente, numa fala permeada com imagens de cortes e cenas de atores reproduzindo momentos dos dois programas. Sobre o primeiro, informou-se o pagamento da poupança para os jovens do ensino médio – represado em parte pela marotagem do governo de destinar recursos do programa fora da previsão orçamentária – e descreveu-se uma “ação extraordinária” que “está ajudando 4 milhões de jovens a permanecerem na escola”. A segunda notícia já fora anunciada pela agora ex-ministra da Saúde, Nísia Trindade, isto é, a gratuidade de 100% dos medicamentos do programa, além da oferta de fraldas geriátricas. “Tudo de graça”, resumiu Lula da Silva.

É da graça marqueteira, concentrada num presidente em campanha permanente, que se sustenta a cartilha do seu ministro da Propaganda. Na realidade onírica do lulopetismo, “tudo de graça” não se resume apenas a uma informação literal ou a uma frase de efeito, mas se revela uma ideia-força por meio da qual funciona o modo petista de governar: num País “reconstruído” por Lula da Silva, ao Estado convém dar dinheiro e medicamentos “a quem mais precisa”. Nesse esforço de um presidente convicto de que é o pai dos pobres, ignora-se que, a despeito dos méritos de tais iniciativas, nada, na prática, é de graça – o País paga a conta de qualquer benefício concedido pelo governo, legítimo ou ilegítimo.

Pelo que diz, como diz e quando diz, o pronunciamento é tudo menos um comunicado tradicional ao País, como os brasileiros se acostumaram a ver sempre que um presidente ou algum de seus ministros recorre à rede nacional de rádio e TV. É evidente que, em nome da boa comunicação pública, instituições e autoridades devem modernizar o formato de seus informes. Mas o que está em curso é de outra natureza: trata-se de campanha eleitoral antecipada. Não havia nenhuma urgência que demandasse um pronunciamento oficial do presidente da República. A única urgência óbvia é a queda acentuada da popularidade de Lula.

O ministro da Propaganda mostrou a Lula da Silva que os tempos são outros. Engolfado pelo mau momento nas pesquisas, balançado por uma coalizão instável e hostil e pressionado pela proximidade cada vez maior do ciclo eleitoral de 2026, o governo resolveu agir – do modo lulopetista, claro. Não à toa, a peça publicitária mirou em dinheiro no bolso e medicamento de graça, com foco no brasileiro pobre, aquele que passou a engrossar o índice de desaprovação ao presidente e ao governo.

À certa altura do pronunciamento-comício, Lula da Silva diz algo que trai suas aspirações: “Seguimos ao lado de cada brasileiro e de cada brasileira: para levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”. A frase completa mostra que o presidente se referia à “reconstrução de um País que estava destruído”. Mas, na cosmologia lulopetista, trata-se, no fundo, de uma tentativa de fazer o governo, esse sim, sacudir a poeira e tentar dar a volta por cima.

ESTADAO

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